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[FILME] 2019: O ANO DA EXTINÇÃO (Daybreakers, 2010)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019.
Em um futuro alarmantemente próximo, os vampiros saíram das sombras e vivem abertamente na sociedade antes dominada pelos seres humanos. Porém, longe de estabelecer uma coexistência mais ou menos pacífica na busca de direitos civis básicos, como proposto na série True Blood, aqui os vampiros optaram por seguir sua natureza predatória, como em The Strain, estabelecendo-se no topo da cadeia alimentar e tratando os humanos como mero gado.
Quase dez anos depois do início da epidemia vampírica, estamos em 2019 e é aqui que o subtítulo nacional se explica: devido à excessiva caça e exploração dos seres humanos em indústrias de drenagem e processamento de sangue em larga escala, a população humana da Terra se reduziu tão drasticamente que está a ponto de se extinguir, o que, consequentemente, também significa a extinção dos vampiros por falta de alimento. O tempo é curto e a necessidade por mais sangue é urgente, pois a falta dele provoca mutações grotescas nos vampiros, transformando-os numa subespécie animalesca e irracional. Para tentar reverter este problema, empresas como a de Charles Bromley (Sam Neill) trabalham no desenvolvimento de um sangue sintético que possa suprir as necessidades vampíricas (ao menos por tempo suficiente para que a humanidade se reproduza até voltar a ser o prato principal e genuíno). Entre os cientistas que trabalham incansavelmente na criação deste sangue artificial está Edward Dalton (Ethan Hawke), hematologista e vampiro “abstêmio” que está mais preocupado em salvar os últimos seres humanos do que atender à sede da sua raça. Ao se deparar com um pequeno grupo de humanos fugitivos, Edward descobre a possibilidade de uma solução para o problema vampírico que pode ser muito mais eficaz que o sangue sintético (cuja produção, aliás, tem fracassado até então).
          Dos filmes que surgiram durante a fase dos “vampiros na moda” (2008 a 2012), 2019: O ano da extinção é o meu preferido. Acho a abordagem dos irmãos Spierig original dentro de uma temática que estava se arrastando em melosismo romântico. Neste filme há espaço para uma sátira sobre o consumismo (propaganda de tratamento clareador dental, túneis exclusivos e veículos especialmente desenvolvidos para a elite dos dentuços), crítica social e, de forma análoga, ainda denuncia o predatismo humano sobre os animais.
Nos aspectos visuais este filme também me agradou muito por terem optado pelo gore prático nos momentos sangrentos (porque CGI em filme de vampiros é broxante). A representação dos vampiros é bem básica: olhos dourados e presas salientes permanentemente. Porém, a maquiagem dos vampiros mutantes merece destaque: parecem monstros saídos da cabeça do Guillermo del Toro. Outro ponto que achei interessante foi a “desglamourização” dos vampiros, ao representá-los sem os poderes de super-heróis comumente associados a eles: neste filme eles não voam, não têm super força e nem super velocidade. De vampiros Marvel basta o Blade. 

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[FILME] VAN HELSING: O CAÇADOR DE MONSTROS (Van Helsing, 2004)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019.

Uma multidão enfurecida, armada com foices e tochas, dirige-se ao castelo de Victor Frankenstein (Samuel West), que a essa altura vibra de felicidade por ter conseguido dar vida à sua criatura abominável. Entretanto, a alegria de Victor dura pouco, pois ali está ninguém menos que Drácula (Richard Roxburgh), que financiou as experiências do cientista e tem intenções pouco humanitárias para a criatura. O conde vampiro pretende usar o monstro de Frankenstein como “bateria” para dar vida a sua numerosa prole de sanguessugas alados em miniatura. Para impedir que este plano grotesco tenha êxito, entra em cena Van Helsing (Hugh Jackman), um experiente caçador de monstros incumbido pelo Vaticano de eliminar as ameaças sobrenaturais que assolam o mundo. Acompanhado do seu fiel escudeiro, frade Carl (David Wenham), Van Helsing parte para a Transilvânia, onde se reúne a Anna Valerious (Kate Beckinsale), descendente de uma antiga família amaldiçoada pela existência de Drácula.
Esta é, em resumo, a trama de Van Helsing, filme que não é exatamente sobre vampiros, mas que os coloca como elemento central numa verdadeira salada de referências aos antigos filmes de monstros da Universal. Aqui há espaço não só para Drácula e Frankenstein, mas também para lobisomens e até mesmo Jekyll/Hyde do clássico O médico e o monstro.
Nos quesitos técnicos, Van Helsing é um filme que não decepciona: fotografia, figurinos, maquiagem e efeitos especiais são realmente dignos de uma superprodução. O problema, na minha opinião, é que toda essa beleza visual cobrou um alto preço: história. A direção e roteiro são de Stephen Sommers, o mesmo responsável pelos dois primeiros filmes da trilogia A Múmia (1999 e 2001). Porém, considero aqueles filmes muito mais sólidos, originais e interessantes, principalmente porque as histórias são bem amarradas – o que eu acho o mais importante em qualquer trama de aventura com elementos de fantasia.
O roteiro de Van Helsing é frágil e cheio de furos, desde as motivações de Drácula até a resolução do grande enigma sobre a localização de seu esconderijo e a forma de destruí-lo. Além disso, o filme apresenta algumas caracterizações de gosto duvidoso, como o Mr. Hyde parecendo o incrível Hulk, o Drácula muito afetado e – o único grande erro do CG – a versão monstruosa dele que aparece no confronto final do filme. Aquele morcegão ficou mais tosco do que o Escorpião Rei que desperta no fim de O retorno da Múmia. O próprio Van Helsing não tem nada daquele velhinho altamente instruído nas ciências ocultas que aparece no livro de Bram Stoker; contudo, isso é perdoável, já que aqui ele nem se chama Abraham, mas Gabriel, algo que pode ser considerado uma saída criativa do diretor e roteirista para a reinvenção do personagem. Seja como for, o fato é que este não é um dos filmes que apresentam Drácula em sua melhor forma.

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[TRILOGIA] BLADE (1998 / 2002 / 2004)

terça-feira, 16 de abril de 2019.

Lançado no final dos anos 90, o primeiro filme de Blade é mais uma produção memorável daquela década riquíssima para o cinema vampiresco (só para citar alguns clássicos da época: Drácula de Bram StokerEntrevista com o vampiro e Um drink no inferno). O principal diferencial de Blade em relação às outras produções é que dessa vez temos uma abordagem mais voltada para a ação, nos moldes dos filmes de super-heróis. De fato, Blade é um personagem dos quadrinhos Marvel, criado por Marv Wolfman e Gene Colan. Caracterizado como um vampiro negro dotado de habilidades precisas no manejo de armas de fogo, lâminas (de onde lhe veio o codinome) e artes marciais, Blade (Wesley Snipes) é uma espécie de (anti)herói que dedica sua vida a exterminar os vampiros. Na mitologia do filme, os vampiros são imunes a “amenidades” como símbolos religiosos, de modo que, para destruí-los, os únicos meios são através da violência e armamentos que contenham prata, alho ou luz ultravioleta.
          Tendo sido transformado em vampiro antes de nascer (sua mãe foi atacada por um vampiro quando já estava grávida), Blade é apenas meio-vampiro, possuindo a força, rapidez e resistência dos vampiros, mas sendo imune à luz solar – razão pela qual ele é conhecido como Daywalker, “O Que Caminha de Dia”. Infelizmente para ele, Blade herdou a sede de sangue dos vampiros, sendo necessário que tome regularmente um soro inibidor preparado por Whistler (Kris Kristofferson), seu mentor e figura quase paterna.
          No universo de Blade existem os vampiros puros (que já nasceram assim, isto é, pertencem a uma linhagem) e os “não-puros”, ou seja, humanos que adquiriram essa condição através de mordida. É nesse último grupo que se encontra Deacon Frost (Stephen Dorff), o vilão deste filme. Humilhado por não ter ascendência pura, Frost planeja vingar-se da elite vampírica e adquirir poder absoluto através de um ritual profético no qual incorporará um deus vampiro ancestral invencível. A missão de Blade é impedir que Frost realize seu objetivo e provoque um apocalipse vampiro sem precedentes.
       De modo geral, Blade é um ótimo filme de ação com vampiros, com boas atuações – especialmente a de Snipes –, roteiro consistente e efeitos visuais muito bons (exceto o dos vampiros “inchando” e explodindo ao levar injeções de anticoagulante: aquilo dá vergonha alheia). Mas ainda assim Stephen Norrington se saiu melhor na direção do que David S. Goyer no terceiro filme.



A sequência de Blade foi dirigida por um Guillermo Del Toro já conhecido no meio hollywoodiano, e ele não decepciona aqui; na verdade, Blade 2: O Caçador de Vampiros é o melhor filme da trilogia. Os eventos se passam dois anos depois da trama anterior. Uma nova raça de vampiros mutantes surgiu, resultado de uma espécie de pandemia viral que torna os infectados quase invulneráveis, a não ser pela luz solar. Esses novos vampiros são muito mais primitivos e selvagens e, além de serem incontroláveis, representam perigo para os vampiros “normais”, pois se alimentam também deles, infectando-os. Na urgência de conter essa praga antes que ela dizime seu “povo”, o Lorde Damaskinos (Thomas Kretschmann) propõe uma trégua/aliança com Blade. Porém, como nosso herói badass bem tem motivos para desconfiar, Damaskinos e sua turma não estão sendo totalmente honestos.
          As cenas de ação e os efeitos visuais desse filme são eletrizantes, das coreografias das lutas aos espetáculos pirotécnicos, mas o mais interessante, sem dúvida, é a concepção dos “reapers” (como são chamados os vampiros mutantes). Eles lembram bastante os monstros criados por Del Toro e Chuck Hogan posteriormente no universo de The Strain: além de serem carecas e muito pálidos, suas bocas se abrem anormalmente com uma fenda que vai até o queixo, e eles infectam as vítimas através da língua, que possui uma espécie de ferrão.



Se o segundo filme foi melhor do que o primeiro, era de se esperar que o terceiro pelo menos mantivesse o nível do antecessor... coisa que passou longe de acontecer. É estranho que David S. Goyer, roteirista dos filmes anteriores, tenha errado tanto ao assumir o roteiro e a direção deste capítulo final da trilogia.
A ideia central de Blade Trinity até que é aceitável: um grupo de vampiros decide ressuscitar ninguém menos que Drácula, o vampiro original, com o objetivo de descobrir seu segredo para ser invencível e imune à luz solar, e, de quebra, fazer com que ele destrua Blade. Em contrapartida, um grupo de caçadores de vampiros que se autodenomina “Nightstalkers” está trabalhando no desenvolvimento de uma “cura” viral para o vampirismo, precisando da ajuda de Blade para infectar Drácula. Até aí, o filme vai bem; o problema é que a execução dessa ideia é péssima, desde a escolha de Dominic Purcell para o papel de Drácula (exceto quando ele está na sua forma monstruosa, parece que ele acabou de fazer um show de axé) até o roteiro cheio de situações forçadas e mal resolvidas levando a um final brega. Talvez o pior recurso desse filme tenha sido introduzir humor desnecessariamente; aliás, o personagem de Ryan Reynolds está o tempo todo fazendo piada, como se já estivesse ensaiando para ser Deadpool. Enfim, é um filme bem dispensável, válido apenas para dar uma ideia de fechamento à trilogia.

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[FILME] DRÁCULA 2000 (Dracula 2000, 2000)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019.

Como o título indica, Drácula 2000 traz o imortal personagem de Bram Stoker para o novo milênio, fazendo-o despertar nos dias atuais (considerando o ano da produção), em busca de sangue, sexo... e um amor que é literalmente parte de si. A história se passa entre Londres e Nova Orleans – cenários clássicos para os vampiros de Stoker e Rice, respectivamente. O filme começa com a chegada fatídica do Demeter a Londres em 1897; há um avanço para o ano 2000 e acompanhamos um assalto minuciosamente orquestrado por ladrões hábeis em driblar segurança eletrônica. Eles invadem a loja de antiguidades de Van Helsing (Christopher Plummer) e encontram um caixão de prata hermeticamente lacrado e trancafiado num cofre nos subterrâneos da loja. Acreditando ser onde estão guardados os pertences mais valiosos do proprietário, eles levam o caixão e acabam inadvertidamente abrindo-o, libertando – e alimentando – novamente o poderoso vampiro, aqui interpretado por Gerard Butler. Drácula parte então para a América, movido por uma fixação pela humana Mary (Justine Waddell), com quem compartilha uma estranha ligação mental. Cabe a Van Helsing, acompanhado de seu incrédulo assistente Simon (Jonny Lee Miller) a missão de impedir que o vampiro concretize seus planos.
          Apesar de não ser uma adaptação direta, este filme, dirigido por Patrick Lussier, faz várias referências ao livro Drácula: além da óbvia presença de Van Helsing – que diz ser descendente do personagem original – sua loja tem o nome Carfax; Drácula transforma especificamente três mulheres, que se comportam como suas “noivas”; ele pode se transformar em lobo e morcego; a mocinha do filme trabalha e mora com uma amiga chamada Lucy e uma das vampiras é tratada por um certo Dr. Seward. Por sua vez, a perseguição de Drácula a Mary lembra a fixação apaixonada do personagem por Mina no filme de Coppola (comentado AQUI).
          Em relação à mitologia vampírica tratada neste filme, vemos que os vampiros não têm reflexos, podem escalar paredes, dar grandes saltos, seduzir, são sensíveis a prata, queimam ao sol e temem crucifixos (a menos que sejam ateus, como é explicado “na prática”); quanto às formas de matá-los, a regra da estaca no coração continua válida, mas é preferível a decapitação.
         Um ponto original nessa produção é a ideia de explorar a identidade de Drácula, o que tem o duplo efeito de buscar uma nova origem para o mito e, consequentemente, uma justificativa para as suas maiores fraquezas aqui: símbolos cristãos, prata e luz solar. Associar o vampirismo a uma maldição infligida a um personagem bíblico é uma ideia realmente interessante e plausível.

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[FILME] OS GAROTOS PERDIDOS (The Lost Boys, 1987)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018.
Após se divorciar, Lucy (Diane Wiest) se muda para a pequena cidade costeira de Santa Carla, na Califórnia, com seus dois filhos, Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim). Enquanto Sam, o caçula, se distrai frequentando a gibiteria dos Irmãos Frog, Michael vai a uma festa noturna na praia e conhece Star (Jami Gertz), uma misteriosa moça por quem se apaixona. O problema é que Star está ligada a uma gangue de jovens rebeldes e arruaceiros liderados por David (Kiefer Sutherland). Michael acaba se envolvendo com o bando e, pouco depois, passa por uma série de estranhas mudanças físicas e comportamentais sem explicação aparente. É aí que entram em ação os irmãos Alan (Jamison Newlander) e Edgar Frog (Corey Feldman): eles revelam a Sam que são, na verdade, matadores de vampiros, e que Michael está se tornando um desses terríveis seres da noite. Para ajudar o irmão a voltar a ser humano, Sam e os Irmãos Frog precisam encontrar e destruir o vampiro mestre, aquele cujo sangue Michael bebeu inadvertidamente.
          Ao apresentar vampiros no universo adolescente, pode-se dizer que Os garotos perdidos representou, para a cultura pop dos anos 80, o mesmo impacto causado pela série Crepúsculo no final da década de 2000. Evidentemente, a semelhança termina aí, pois os vampiros do filme de Joel Schumacher (o sujeito que mais tarde seria repudiado por destruir a carreira do Batman no cinema) nada têm do espírito politicamente correto característico daqueles sugadores do século XXI. Ao contrário, eles são selvagens e manipuladores, sendo também sedutores quando lhes convêm.
          Um dos aspectos que mais chamam a atenção em Os garotos perdidos é que o filme preserva o máximo de características da mitologia vampírica tradicional: aqui eles são feridos por cruzes, água benta e alho, queimam ao sol, podem ser destruídos com estacas no coração, não têm reflexo, precisam de convite para entrar nas casas, têm caninos pontiagudos, podem voar e dormem em lugares escuros, de preferência suspensos no teto como morcegos.
          Como foi dito no texto sobre Quando chega a escuridão, há bastante semelhança entre este e aquele filme: além de ambos serem de 1987, contam com uma trama romântica juvenil que ocorre no seio de uma gangue de vampiros marginais e sanguinários.
          Os garotos perdidos é, enfim, uma das produções vampirescas mais marcantes sobre o tema já realizadas, merecendo o status de cult que possui entre sua legião de fãs; é também um filme estiloso e nostálgico, com a cara dos anos 80 (os cortes de cabelo e penteados da turma de David são clássicos). Nos aspectos técnicos ele também se destaca, com boa direção de arte, maquiagem, efeitos e trilha sonora: é impossível ouvir “Cry little sister” sem associar a música imediatamente ao filme.

Mais de vinte anos depois do filme original, foram lançadas duas sequências inteiramente descartáveis:

Garotos perdidos 2: A Tribo (Lost boys: The Tribe, 2008) dirigido por P.J. Pesce, nada acrescenta de relevante ao primeiro. O único ator remanescente é Corey Feldman, mais uma vez na pele do caçador de vampiros Edgar Frog. Dessa vez ele é procurado por um jovem cuja irmã foi infectada e está prestes a se tornar uma morta-viva definitivamente. Afora as cenas gore, é um filme chato, insosso e sem personalidade. Ele tenta ousar com algumas cenas mais violentas e elaboradas do que as do original (algo fácil, já que os efeitos especiais evoluíram muito de lá para cá), mas tais cenas são poucas e não compensam o andamento desinteressante do filme. O apelo sexual gritante também não ajudou esta produção a se destacar positivamente.




Garotos perdidos 3: A Sede (Lost boys: The Thirst, 2010) dirigido por Dario Piana, é ligeiramente mais consistente que o segundo, mas igualmente dispensável. Aqui ao menos há algumas conexões com o primeiro filme: uma referência a Michael e Star, a presença de Alan e uma homenagem a Sam. Quanto à trama, à primeira vista parece ter sido tirada de True Blood, falando sobre o uso de sangue de vampiro como uma droga; entretanto, se na série da HBO o propósito do uso de “V” era o efeito alucinógeno e afrodisíaco, neste filme o objetivo é bem mais pretensioso... e clichê: formar um exército de vampiros a partir do sangue do “original”.


Pessoalmente, acho Os garotos perdidos um filme completo e irretocável; uma mistura muito bem dosada de terror, romance e comédia. O fato de as continuações terem sido lançadas duas décadas depois acabou por torná-las ainda mais descaracterizadas e distantes do original. Se, hipoteticamente, essas sequências tivessem sido produzidas ainda entre o final dos anos 80 e meados da década de 90, talvez fossem melhores, pois, mesmo com roteiros fracos, ao menos teriam aquela atmosfera saudosista e estilo marcante do primeiro.

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[FILME] KISS OF THE DAMNED (2012)

terça-feira, 30 de outubro de 2018.

Seduzida pelo escritor Paolo (Milo Ventimiglia, de Autópsia de um crime), a vampira Djuna (Joséphine de La Baume) não resiste à paixão recíproca, entregando-se ao rapaz depois de muito hesitar e revelar sua natureza condenada, tal como é representada no título do filme. A partir daí desenvolve-se uma ardente relação romântica entre eles, com Paolo cedendo à tentação de tornar-se ele também um vampiro para passar a eternidade com sua amada. Posteriormente, Djuna apresenta Paolo ao círculo de amigos dela, o qual se compõe basicamente de um grupo de vampiros “civilizados” supervisionados por Xenia (Anna Mouglalis). Paolo não encontra dificuldades ao lidar com esses vampiros que são, aliás, muito receptivos; o problema está na chegada repentina de Mimi (Roxane Mesquida), irmã de Djuna. Mimi também é uma vampira mas, ao contrário da irmã, que é culta, discreta e tem algum senso de moralidade, ela é o oposto, revelando-se perigosa e maligna, disposta a infernizar a vida de Djuna e pôr em risco toda a comunidade vampírica.
          Apesar de bem menos conhecido do que Amantes eternos (Only lovers left alive), de 2013, Kiss of the damned (com o título nacional genérico O beijo do vampiro) apresenta muitas similaridades com o filme de Jim Jarmusch, desde o tom gótico e melancólico que remete ao estilo de Fome de viver (comentado AQUI) até a trama central do casal de amantes vampiros atormentado pela irmã inconsequente e indiscreta da protagonista. Porém, particularmente considero Kiss of the damned mais ágil e menos contemplativo do que Amantes eternos, que achei francamente arrastado e cansativo, embora seja de fato melhor em termos técnicos.
          O vampirismo é tratado aqui numa perspectiva que concilia o tradicionalismo da mitologia (com vampiros que evocam sensualidade, queimam ao sol e têm presas) com elementos “modernos”, como o fato de que eles podem sobreviver ingerindo somente sangue animal (se optarem por esse estilo de vida) e são despojados da maioria dos “superpoderes” convencionais: eles não hipnotizam, não voam e com certeza não se transformam em morcegos.
          Dirigido por Xan Cassavetes, Kiss of the damned possui alguns méritos que valem a conferida; a fotografia é muito boa e a trilha sonora é bastante evolvente, contribuindo para a imersão do espectador naquela atmosfera de sedução e morte. Além disso, a produção abre espaço para algumas discussões relevantes no seu contexto, como culpa, redenção e moral.

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[FILME] O QUE FAZEMOS NAS SOMBRAS (What we do in the Shadows, 2014)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018.

Quatro vampiros de idades, origens e personalidades diferentes moram na mesma casa, em Wellington, Nova Zelândia. Eles precisam constantemente adaptar sua condição vampírica às mudanças do mundo moderno e às tecnologias, bem como lidar com os próprios atritos entre si. Este é, basicamente, o conteúdo de O que fazemos nas sombras, que lembra a premissa da série Being Human. A diferença fundamental é que na série britânica da BBC (bem como no remake americano da SyFy) os seres sobrenaturais que dividem a mesma casa têm naturezas distintas: tratam-se de um vampiro, um lobisomem e uma fantasma. Outro aspecto notável é que, enquanto a série procura conciliar o drama e o humor, este filme é abertamente uma comédia de humor negro.
Com muita criatividade o filme, dirigido por Taika Waititi e Jemaine Clement (que também atuam) se apresenta como um documentário, no qual alguns cinegrafistas, devidamente “preparados” – o que inclui o uso de crucifixos – obtêm permissão para registrar o cotidiano dos vampiros Vladislav (Jemaine Clement), Viago (Taika Waititi), Petyr (Ben Fransham) e Deacon (Jontahan Brugh). Assim, temos uma visão subjetiva (que em alguns momentos até lembra o estilo found footage), onde acompanhamos a perspectiva dos cinegrafistas que, evidentemente, não “aparecem”.
          O que fazemos nas sombras satiriza a imagem arquetípica do vampiro no cinema em vários níveis, a começar pela própria representação de seus personagens: Vladislav é claramente inspirado no Drácula “real”, o Empalador, com um visual que remete ao de Gary Oldman no filme Drácula de Bram Stoker. Petyr, com sua aparência bizarra, careca, branco, praticamente mudo e dentuço, é inspirado no Nosferatu de Murnau; Deacon é o vampiro rebelde, do tipo “tô nem aí”, que lembra os sanguessugas jovens da década de 80, como Severen, de Quando chega a escuridão. Viago, por sua vez, muito engomado e afetado, é o típico almofadinha que poderia ter saído de Entrevista com o vampiro. Além desses personagens principais ainda há espaço para coadjuvantes, como é o caso de Nick (Cori Gonzales-Macuer), que representa o vampiro adolescente “moderno” (não é por acaso que ele diz ser “o vampiro de Crepúsculo”).
          Os vampiros deste filme têm os poderes e as fraquezas típicas, e além de ter de conviver com suas limitações, têm de enfrentar problemas clássicos, como sua rixa com os lobisomens, enfrentar caçadores de vampiros e até lidar com divergências com outros “clãs”; tem espaço até para referenciar o subgênero zumbi.
          De modo geral, O que fazemos nas sombras é um filme divertido, engraçado e inteligente que felizmente não se perde no besteirol gratuito. Atualmente estamos numa fase de reciclagem de ideias em que todo filme bem-sucedido deve ganhar sequência, remake, reboot ou versão para TV, de modo que este filme não é exceção: uma série derivada já está em produção. 


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[FILME] SEDE DE SANGUE (Bakjwi / Thirst, 2009)

terça-feira, 2 de outubro de 2018.

O virtuoso padre Sang-Hyun (Song Kang-ho) aceita ser voluntário de uma experiência médica para a produção de uma vacina a partir da exposição a um vírus mortal. Ele é infectado e passa a sofrer os efeitos terríveis da doença que vão de pústulas a hemorragias intensas. Para tentar salvá-lo, os médicos realizam nele uma transfusão de sangue de um doador desconhecido, mas ainda assim o padre “morre”. Logo em seguida, contudo, ele “ressuscita” e não demora a perceber que se tornou um vampiro: possui super força, velocidade, habilidade de dar grandes saltos no espaço e capacidade de se regenerar imediatamente. Entretanto, ele percebe que junto com esses “poderes” vêm também uma série de fraquezas: a implacável sede de sangue, a intolerância à luz solar e, o que parece atormentá-lo acima de tudo, a necessidade de dar vazão à sua sexualidade, reprimida por tanto tempo na sua vida humana em nome da fé.
          Sede de sangue é um premiado filme coreano do diretor Park Chan-wook. Foi lançado durante a fase em que o vampirismo estava no auge do fenômeno teen, mas se distancia daquelas produções devido ao seu caráter fortemente sexual e à violência gráfica intensa. Na verdade, afora o contexto da história, a representação dos vampiros neste filme remete mais ao estilo de Anne Rice em Entrevista com o vampiro (comentado AQUI) ou de True Blood.
          Hyun representa o típico vampiro que se martiriza porque não quer matar seres humanos, o que pode soar como o velho clichê do politicamente correto, mas é interessante notar como essa consciência dele “faz sentido”, já que, afinal de contas, ele é um padre. Enfrentar seu novo lado vampiresco e sanguinário é o mesmo que lidar com os velhos desejos carnais que ele reprimia na vida humana, embora numa escala bem mais ampla. Outro problema é o fato de que aqui os vampiros não são necessariamente imortais; se não ingere sangue humano, o corpo de Hyun se deteriora e volta ao aspecto doentio que tinha antes da conversão, isto é, infectado pelo vírus letal. Como se não bastasse sua nova condição de morto-vivo, Hyun acaba se apaixonando por Tae-ju (Ok-bin Kim, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz pelo papel no Stiges - Catalonian International Film Festival), uma moça pobre que é constantemente maltratada por sua “Mamãe” e sogra, uma megera que a recolheu da orfandade ainda na infância e posteriormente a casou com seu filho paspalho, Kang-woo (Ha-kyun Shin). A princípio relutante, Hyun se rende à beleza e charme de Tae-ju, vivendo com ela um tórrido romance secreto, duplamente proibido: por constituir adultério e por ir contra seu voto de castidade. Mais tarde, após um assassinato cometido por Hyun em defesa de Tae-ju, ele percebe que sua amada não é tão vítima quanto ele imaginava e o romance se torna uma espécie de jogo de ódio que termina com a transformação de Tae-ju em vampira, desencadeando novas e desagradáveis surpresas.
          Pelo que foi dito, pode parecer que Sede de sangue é um filme muito forte, mas não é bem assim; é claro que é uma produção violenta, como já citado, com doses generosas de gore onde os ótimos efeitos especiais e a maquiagem caprichada garantem sangue jorrando em profusão. Apesar disso, é uma mistura de drama, terror e comédia – principalmente através do humor negro, como nas sequências bizarras em que o casal é atormentado pelo fantasma do sujeito assassinado. Curiosamente, o filme é creditado como “inspirado em 'Thérèse Raquin', de Émile Zola”, mas eu duvido muito que haja vampiros no romance escrito pelo pai do Naturalismo francês. Ao que parece, a “inspiração” tirada do livro foi a construção do drama em torno de Tae-ju e do posterior crime do qual ela é a causa. 


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[FILME] INFECTADO (Afflicted, 2013)

terça-feira, 25 de setembro de 2018.

Dois amigos decidem fazer um longo tour ao redor do mundo, visitando pontos turísticos dos seis continentes, a fim de registrar e compartilhar tudo com os seguidores do seu canal na internet. Entretanto, essa não é a principal motivação da dupla; um deles – Derek – foi diagnosticado com uma grave e imprevisível doença, uma espécie de aneurisma, que pode fulminá-lo de uma hora para outra. Assim, essa viagem pode significar a despedida dele para a vida.
Depois de passar pela Espanha, Derek Lee e Clif Prowse (verdadeiros nomes dos atores, que também são os roteiristas e diretores) chegam a Paris, onde, durante uma balada, Derek conhece uma moça com quem espera “se dar bem”. As coisas não saem como o esperado e Clif encontra o amigo machucado e com estranhas feridas. A princípio eles não dão muita atenção ao ocorrido e continuam a viagem, mas com o passar dos dias, outros problemas acometem Derek: ele fica sonolento, intolerante a comida e extremamente sensível à luz solar, além de passar por uma gradual transformação física.
          Infectado é um filme do tipo found footage, estilo do qual eu não sou particularmente fã; já cheguei, inclusive, a citar um outro filme nesse molde, O assassino das sombras, presente na lista 10 filmes de vampiro para morrer antes de ver. Contudo, diferente daquele filme, que é basicamente um cruzamento pavoroso (no pior sentido) de A bruxa de Blair e O bebê de Rosemary, este Infectado  é bem mais plausível dentro do que se propõe. Ao invés de estar investigando relatos sobrenaturais, os protagonistas aqui se deparam inesperadamente com o vampirismo, duvidando, no início, que seja isso que está acontecendo com Derek; há até um momento em que gozam das habilidades adicionais que ele não adquiriu, como o poder de se transformar em névoa, comandar animais e precisar de um convite para entrar nas casas.
          O conceito de vampirismo apresentado neste filme combina elementos que lembram Eu sou a lenda (o filme com Will Smith) e até The Strain, na representação e nas características vampíricas. Não há nada do glamour, sensualidade ou nobreza dos vampiros modernos ou dos clássicos aristocráticos. Aqui, o vampiro fica selvagem e incontrolável quando passa muito tempo sem se alimentar, não possui presas, têm velocidade e força sobre-humanas, consegue escalar e dar grandes saltos com extrema habilidade. Além disso, seu organismo só aceita sangue humano; sangue de animais ou qualquer tipo de comida são violentamente expelidos em forma de vômito. 
          Um conceito muito interessante, abordado neste filme foi a questão da imortalidade: o vampirismo é, de fato, uma maldição interminável e o “infectado” não pode morrer. Derek descobre isso depois de cometer um ato bárbaro e tentar o suicídio, devido ao remorso (pois ele conserva a consciência de seus atos depois de realizados). Mais adiante ele percebe que a estaca no coração também é um mito. A única fraqueza verdadeira é a luz do sol, e ainda assim ela não provoca aquele “efeito tocha” tão conhecido. Causa, sim, uma dor insuportável, acompanhada de queimaduras gravíssimas (destaque para os ótimos efeitos práticos).
          Infectado foi muito bem aceito pela crítica, tendo uma boa média no Rotten Tomatoes e chegando, inclusive, a ganhar alguns prêmios importantes em festivais dedicados ao gênero. Vale a conferida.


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[FILME] ENTREVISTA COM O VAMPIRO (Interview With the Vampire, 1994)

terça-feira, 11 de setembro de 2018.


Com roteiro escrito pela própria autora Anne Rice, Entrevista com o vampiro é uma das mais notáveis produções vampirescas lançadas no decorrer dos anos 90, ficando no mesmo patamar do clássico Drácula de Bram Stoker, de Coppola (comentado AQUI). Dirigido por Neil Jordan (que a autora ajudou a escolher por gostar de seu trabalho em A companhia dos lobos), o filme é uma adaptação do primeiro volume da longa série literária conhecida no Brasil como Crônicas Vampirescas.
Protagonizado por Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas, além da então pequena Kirsten Dunst, o filme tem uma legião de fãs que aprovaram a adaptação, mas, inevitavelmente, também conta com um número significativo de leitores menos impressionáveis e mais exigentes da obra de Rice, os quais criticam a produção, em especial pela escolha dos atores. Isso porque Cruise, Banderas e até Dunst interpretam personagens muito mais jovens do que os atores aparentam; Banderas, principalmente, interpreta Armand, um vampiro descrito no livro como um adolescente ruivo. Particularmente, porém, achei a ideia de um Armand com aparência de adulto muito plausível neste filme, porque é mais fácil acreditar na mentira de que ele é o vampiro mais velho que existe (como ele afirma para Louis) aparentando ser mais velho do que Brad Pitt (que interpreta Louis) do que se escolhessem um ator adolescente. Não creio que Banderas pudesse permanecer sendo Armand se, hipoteticamente, os demais livros fossem adaptados para o cinema, mas como filme isolado ele se sai muito bem.
Quanto a Tom Cruise, a própria Rice inicialmente torceu o nariz para a escolha dele para viver Lestat, apelidado nas Crônicas de Príncipe Moleque, devido à sua pouca idade e temperamento inquieto. De fato, Cruise não corresponde à imagem concebida pela escritora para seu personagem mais querido, mas, a despeito disso, considero sua atuação impecável, tão marcante quanto Gary Oldman como Drácula. Cruise apresenta um Lestat hedonista, sensual, ambíguo e por vezes sarcástico que funciona em perfeita sintonia com a atuação mais emotiva de Pitt como o atormentado Louis. Não menos importante é a atuação arrebatadora de Kirsten Dunst como a voluntariosa Claudia, a pequena vampira “filha” de Louis e Lestat.
Em relação à trama, pouco há a ser falado que já não tenha sido abordado especificamente no texto sobre o livro Entrevista com o vampiro. Afora uma ou outra modificação na história original (como as circunstâncias que levaram o Louis humano à depressão e, posteriormente, a conhecer Lestat e a peregrinação de Louis pela Europa antes de chegar a Paris), o roteiro é bastante fiel à obra escrita, o que demonstra o respeito da autora pelos leitores e, mais que isso, o perfeccionismo dela. Juntamente com Jordan, ela procurou preservar o máximo possível dos elementos característicos do livro e do universo criado por ela, como o teor gótico da história e a sensualidade dos vampiros (nesse aspecto, de um tom perceptivelmente homoerótico).  Figurinos, fotografia e direção de arte são fatores que acentuam ainda mais o capricho da obra. Além disso, há ainda os ótimos efeitos especiais práticos, usados com inteligência e sem espalhafato, apenas nos momentos em que são realmente necessários – como na tentativa de assassinato de Lestat cometida por Cláudia. Felizmente, na década de 1990 o cinema ainda não tinha sido invadido pelo preguiçoso e tosco CGI de hoje. A cena que usa mais efeitos é o incêndio do Teatro dos Vampiros, e ainda assim não me pareceu exagerada ou falsa como acontece em qualquer “épico” atualmente. A moderação não deveria ser tão subestimada.

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[FILME] DRÁCULA DE BRAM STOKER (Bram Stoker's Dracula, 1992)

terça-feira, 28 de agosto de 2018.

Das numerosas adaptações do livro Drácula para as telas (em especial as que estão NESTA LISTA), acredito que este filme de Francis Ford Coppola seja a produção mais representativa e controversa entre os leitores da obra de Bram Stoker. Há aqueles que criticam o filme severamente, acusando-o de distorcer a história do vampiro mais famoso do mundo, transformando-o de morto-vivo cruel e repulsivo a gentleman apaixonado por uma amada reencarnada; nesse sentido, a maior implicância dos leitores está no romance entre Drácula e Mina, coisa que, de fato, não existe no livro. A certa altura da obra escrita o vampiro cria um vínculo com Mina (assim como com outras vítimas), mas é uma ligação de pura dominação mental, não havendo nada de romântico nela. Por outro lado, há aqueles que consideram esta a adaptação “definitiva” do romance clássico: eu fico neste grupo.
Mesmo acrescentando a trama romântica que desagradou tanta gente, o roteiro de James V. Hart é, na minha opinião, o mais fiel ao livro – por mais irônico que possa parecer. Como na obra, o filme segue uma estrutura epistolar, com narrações de Jonathan Harker (Keanu Reeves), Mina Murray (Winona Ryder) e Jack Seward (Richard E. Grant), além de trechos de manchetes – como a sequência sobre a tempestade e o misterioso naufrágio do navio Demeter. O maior mérito desse roteiro em relação ao das outras adaptações é que ele respeita o máximo possível as relações e a presença dos personagens do livro. Geralmente os roteiristas cortam personagens ou "fazem salada" com eles, como em alguns filmes onde Lucy e Mina tem os papéis (e funções) trocados, ou são irmãs, ou Lucy é filha de Jack Seward, ou Arthur e Quincey não existem (ou são uma pessoa só)... enfim: é uma bagunça absurda. Já neste Drácula de Bram Stoker, excetuando a ausência da mãe de Lucy, quase tudo é preservado tal qual na obra original: Mina é amiga de Lucy; Lucy tem os três pretendentes: Arthur, Quincey e Seward; Mina é noiva de Jonathan. Para quê complicar?
          A trama começa com uma sequência inexistente no livro, mas que justifica alguns elementos importantes do filme: uma batalha entre o exército do Drácula “real”, histórico contra os turcos. Dessa batalha resultam a perda de sua amada esposa e a conversão de Drácula em vampiro, numa cena dramática que mostra a origem do vampirismo e o porquê da sua consequente intolerância aos símbolos cristãos.
          A escolha de Gary Oldman como protagonista é tão peculiar quanto acertada. O ator realmente não lembra o personagem do livro e nem os outros Dráculas anteriores do cinema, com cabelo lambido e capa preta; em compensação, parece muito o Drácula histórico, Vlad Tepes, o Empalador, e é exatamente isso que o filme quer ressaltar. Independentemente disso, Oldman apresenta uma atuação inspirada, seja nos momentos em que assombra seus perseguidores e vítimas, seja quando se deixa arrebatar por seu amor à Mina, por quem “cruzou oceanos de tempo”. O elenco de apoio também está impecável, particularmente Anthony Hopkins (que considero o melhor Van Helsing do cinema) e Sadie Frost como a memorável Lucy Westenra. Até personagens menores, como as noivas de Drácula (destaque para Monica Bellucci) estão muito bem situados.
          Nos aspectos técnicos, este filme é um show à parte. A direção de arte na viagem de Jonathan à tenebrosa Transilvânia e nas cenas noturnas na enevoada Londres do século XIX, consegue nos transportar para a atmosfera sombria sugerida pelo livro com perfeição. Além disso, os figurinos exuberantes e a maquiagem de efeitos práticos tornam a experiência de vê-lo ainda mais fascinante.
          Vencedor de 3 Oscars, Drácula de Bram Stoker não só é a melhor versão do romance, como também é meu filme de vampiros favorito de todos os tempos, mesmo que Entrevista com o vampiro, de Neil Jordan, esteja constantemente disputando o posto. Ambos são caprichosas adaptações de excelentes obras literárias que resultaram em espetáculos góticos sensuais: um tributo à essência clássica dos eternos sanguessugas.


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[FILME] OS VAMPIROS DE SALEM / A MANSÃO MARSTEN ('Salem's Lot, 1979 / 2004)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018.

Primeira adaptação do livro A hora do vampiro, de Stephen King (mais detalhes AQUI), esta minissérie foi dirigida por Tobe Hooper (cineasta responsável por clássicos do terror como O massacre da serra elétrica e Poltergeist). Posteriormente, foi editada e relançada em forma de um longo telefilme.
Curiosamente, mesmo sendo tão extensa, essa produção simplificou, modificou e cortou muitos personagens e eventos da história, o que, a meu ver, tornou a experiência de assistir a ela bastante cansativa até mais ou menos a metade. Isso aconteceu porque o roteiro se concentra basicamente no personagem Ben Mears (David Soul) e sua ligação com a mansão Marsten, deixando de lado a grande riqueza de subtramas que poderiam ser exploradas e entrelaçadas, como acontece no livro.  Se se tratasse de um filme de até duas horas, essa simplificação excessiva poderia ser relevada, mas estamos falando de uma obra com 3 horas de duração, o que torna difícil defender essa preguiça do roteiro.
          Entretanto, apesar de esse projeto de Hooper deixar muito a desejar como adaptação, ele tem alguns méritos se analisado como uma produção “original”, ou seja, sem que fiquemos fazendo comparações com o livro. O filme se arrasta muito (com atuações pouco louváveis) até que o clima de apreensão e horror se torne palpável, mas quando isso acontece temos um vislumbre de por que o diretor carrega fama de um dos mestres do gênero. A concepção dos vampiros flutuando na névoa e aparecendo nas janelas é o que há de mais memorável, na minha opinião. A maquiagem dos vampiros, com olhos amarelados, palidez exagerada e caninos longos pode parecer tosca hoje, mas certamente cumpre bem sua função para a época.
        Falando nos vampiros, Hooper inspirou-se claramente no Nosferatu de Murnau para a concepção de seu Barlow. Quem já leu o livro de King, sabe que o “Mestre” é fisicamente semelhante ao Drácula de Bram Stoker, mas neste filme ele está com a aparência grotesca do conde Orlok: careca, com orelhas pontudas, unhas compridas, dentes incisivos longos e tortos. Como diferencial, ele tem a pele bizarramente arroxeada. Outra característica notável é que nesta adaptação ele não fala (algo compreensível, pois seria difícil Reggie Nalder falar com aquela dentadura medonha). Para contornar essa “deficiência”, nos momentos em que ele aparece e diálogos são necessários, ele conta com Straker (James Mason) como intérprete.
          De um modo geral, este Os vampiros de Salem vale a conferida, mas está longe de ser uma das melhores adaptações de Stephen King; além de ter muitas restrições em relação à violência e ao conteúdo impactante do livro, por se tratar de uma versão para TV, ele é muito novelesco e o estilo dos anos 70 não lhe caiu muito bem. Se tivesse sido um filme para cinema, sem o cabresto da censura televisiva da época, acredito que o diretor poderia ter mais liberdade para ousar e torná-lo tão memorável quanto a adaptação de Carrie, a estranha, de Brian De Palma, também dos anos 70, mas que consegue ser infinitamente superior.

***



Lançada originalmente como uma minissérie em duas partes, A Mansão Marsten é outra adaptação do livro A hora do vampiro, também convertida para um filme de 3 horas. O título é uma referência à primeira parte do romance e designa uma casa que abriga forças malignas, situada na cidade onde se passa a história. Apesar de tão longa quanto a adaptação de Tobe Hooper, considero esta versão “recente” muito superior e bem menos cansativa que a primeira, tendo um bom elenco e preservando muito mais aspectos do roteiro do livro do que a dos anos 70.
Dirigido por Mikael Salomon, este filme apresenta um Ben Mears (Rob Lowe) bem mais aceitável, jovem e carismático do que David Soul; outro acerto foi dar a Rutger Hauer o papel de Barlow, pois, na minha opinião, ele ficou bem mais condizente do que aquele Nosferatu roxo da primeira versão. Uma curiosidade é que Hauer já foi "vampiro-líder" em outra produção: Buffy: A caça-vampiros, dos anos 90. Outros nomes interessantes do elenco incluem Donald Sutherland como Straker (fisicamente não se parece em nada com o do livro, mas ficou bem melhor do que James Mason) e James Cromwell como o padre Callahan.
         Outro ponto a favor desta versão é que ela manteve algumas subtramas do livro e deu espaço para personagens menores, como o motorista de ônibus rabugento e sua implicância com as crianças; o corcunda amargurado com sua fixação por uma “lolita” que o despreza; a jovem mãe relapsa que espanca seu bebê e a esposa infiel flagrada no ato (neste último caso, as duas tramas foram fundidas). Além disso, deu o destaque merecido ao passado de Ben e sua aventura traumática na Mansão, através de flashbacks de sua infância, mudando alguns fatores, mas entregando o mesmo produto.
          Quanto à abordagem do vampirismo, também não acho que fique devendo à outra adaptação. Os vampiros aqui são pálidos, têm olhos esbranquiçados, caninos longos e algumas habilidades, como flutuar e hipnotizar. Também há as clássicas cenas em que eles aparecem levitando nas névoa, arranhando as janelas das suas vítimas em potencial.
          Por fim, é necessário lembrar que nesta adaptação há cenas consideravelmente sangrentas; pode soar estranho ter que mencionar algo tão óbvio em se tratando de um filme sobre vampiros, mas como na primeira versão a violência e a presença de sangue eram praticamente inexistentes, achei importante frisar esse aspecto.
          Recomendo (principalmente a quem já leu o livro) que se assista às duas versões, mas se tiver que escolher só uma, é esta que eu indico.


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[FILME] UM ESTRANHO VAMPIRO / O BEIJO DO VAMPIRO (Vampire's Kiss, 1988)

domingo, 29 de julho de 2018.

Apesar de ser geralmente rotulado como comédia, Um estranho vampiro (também conhecido pelo título alternativo O beijo do vampiro) é uma produção que eu acredito que vai além dessa classificação simplista, tanto pelo roteiro extravagante quanto pelo próprio estilo de humor centrado nos efeitos de um grave transtorno mental.
Dirigido por Robert Bierman , o filme já começa com Peter Loew (o personagem de Cage) numa sessão de terapia com sua psiquiatra, o que já dá uma pista da instabilidade mental dele, que só aumenta ao longo da história, culminando com sua crença de que se tornou um vampiro. Loew trabalha numa agência literária e a perda do contrato de um cliente funciona como gatilho para deixá-lo mais desequilibrado e esquisito do que ele já é. A partir daí ele passa a pressionar sua secretária, Alva (Maria Conchita Alonso), para que ela encontre tal documento. A pressão vai se agravando, tornando-se perseguição e assédio em situações cada vez mais bizarras, onde Loew não fica devendo muito a Jack Nicholson em O Iluminado, em termos de loucura desenfreada. O humor do filme é justamente sustentado pela atuação alucinada de Nicolas Cage nessas situações sem noção, onde ele faz um bocado de caras e bocas (que, inclusive, se tornaram memes nas redes sociais), enquanto seu personagem se deixa consumir rapidamente por um comportamento neurótico e esquizofrênico.
A abordagem do vampirismo deste filme lembra muito o trabalho de George Romero em Martin (comentado AQUI); em ambos os casos trata-se de uma condição patológica relacionada a distúrbios psicológicos. Em Martin, o personagem-título crê ser vampiro devido a uma maldição da família, enquanto em Um estranho vampiro (considero este título bem apropriado) o estresse do trabalho somado à convicção de que foi mordido por uma vampira num encontro casual pouco depois de “lutar” com um morcego que invadiu seu apartamento, resultam na condição vampiresca de Loew.  Também os finais dos dois filmes são muito parecidos, com resultados trágicos para os transtornos dos protagonistas.
Mesmo que o elemento vampiresco presente neste filme seja essencialmente psicológico, acho que é uma produção que merece ser conferida, pois faz referências aos mais diversos elementos do universo dos sugadores. Loew chega ao cúmulo de usar uma dentadura de vampiro de plástico, quebrar os espelhos de sua casa, vedar as janelas para que a luz solar não entre e até a improvisar um caixão emborcando um sofá para dormir embaixo dele. Isso sem falar na “estaca” que ele passa a carregar, como uma penitência por sua natureza vampírica, já próximo do final. E, como cereja do bolo, ele ainda assiste ao Nosferatu, de Murnau.


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[FILME] UM DRINK NO INFERNO (From Dusk till Dawn, 1996)

sábado, 21 de julho de 2018.

Assim como O estranho mundo de Jack é lembrado como um dos filmes mais célebres de Tim Burton, embora não tenha sido dirigido por ele, Um drink no inferno é apontado como um dos principais trabalhos de Quentin Tarantino, embora ele também não seja o diretor desta produção. A direção fica por conta de Robert Rodriguez, mas Tarantino foi o responsável pelo roteiro, além de ser o produtor e atuar em um dos papéis principais.
Na trama, Seth (George Clooney) e Richard (Tarantino) são os irmãos Gecko, criminosos procurados pela polícia do Texas por assalto a banco e assassinato de mais de quinze pessoas. Eles pretendem escapar com o produto de seus roubos fugindo para o México e, para isso, sequestram a família do pastor Jacob Fuller (Harvey Keitel) como reféns e fachada até que a fuga acabe como planejado. Entretanto, quando eles finalmente cruzam a fronteira mexicana, chegam a uma região desolada onde se deparam com o Titty Twister, uma espécie de casa noturna aberta “do anoitecer ao amanhecer” (vindo daí o título original do filme). Os Gecko e os Fuller entram nessa “boate” (aqueles, para comemorar o sucesso na fuga; estes, coagidos pelos primeiros) e, quando a noite fecha, o lugar se transforma no palco de uma carnificina vampiresca liderada pela bela Santanico Pandemonium (Salma Hayek).
          Um drink no inferno é uma mistura de terror e ação, mas também tem umas pitadas de comédia (sobretudo nas sequências de ataque dos vampiros) que lembram os filmes trash da década de 80 em sua melhor forma: desde a maquiagem tosca dos vampiros em sua forma “reptiliana” até os exageros gosmentos nas cenas de violência, é um filme divertidíssimo para quem aprecia o gênero.
          Um ponto que considero particularmente louvável nesse filme é a diversidade de personagens, fugindo dos velhos clichês simplistas dos “mocinhos ingênuos sendo perseguidos pelos monstros maus”: aqui os “heróis” são bandidos, não apenas os Gecko, mas também outros frequentadores do Titty Twister, de caráter duvidoso, como Sex Machine (Tom Savini). O próprio Jacob Fuller está vivendo uma crise de falta de fé que o coloca numa posição bem pouco religiosa em relação aos filhos.
          Outro ponto interessantíssimo é a mitologia criada em Um drink no inferno para os vampiros – pelo menos aqueles que habitam o Titty Twister. Como já mencionado, os vampiros aqui assumem uma forma extravagante quando atacam, com pele, olhos e dentes muito semelhantes aos de répteis. Fica subentendido que eles têm uma origem específica na mitologia asteca (o que é confirmado na cena de desfecho do filme), mas apresentam as características básicas já conhecidas para esses seres: temem símbolos cristãos (crucifixos e água benta), queimam ao sol, transformam-se em morcegos mutantes e podem ser eliminados com a clássica estaca no coração.
         O filme teve duas sequências:

          Um drink no inferno 2: Texas sangrento (From dusk till dawn: Texas bloody money, 1999): Este eu considero inteiramente descartável por não ter vínculo com o primeiro (exceto por uma curta cena no Titty Twister na primeira metade do filme);
          Um drink no inferno 3: A filha do carrasco (From dusk till dawn 3: The hangman’s daughter, 2000): Achei este bem mais interessante que o 2º; não é uma sequência, mas um filme do tipo “o início”, que narra eventos anteriores aos ocorridos no primeiro filme, destacando as origens de Santanico e sua ascensão ao posto de rainha vampira do Titty Twister.
          O filme original também deu origem à série de TV: From Dusk till Dawn: The Series, lançada em 2014, sendo produzida pelo próprio Robert Rodriguez.

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[FILME] INOCENTE MORDIDA (Innocent Blood, 1992)

domingo, 15 de julho de 2018.

Vampiros e máfia: essa é a extravagante combinação apresentada em Inocente mordida. Dirigido por John Landis (do clássico Um lobisomem americano em Londres), a história se passa em Pittsburgh e, dessa vez, ao invés do confuso lobisomem David, temos uma vampira chamada Marie (Anne Parillaud) que, conforme a perspectiva, pode ser considerada uma sanguessuga “boazinha”. Isso porque, embora sanguinária e selvagem, Marie persegue e se alimenta somente do sangue de homens “maus”, tendo uma preferência especial por bandidos (itens em abundância naquela cidade). Por essa razão, penso que a tradução literal do título original do filme (“Sangue inocente”) seria muito mais apropriada do que o título nacional, que é bastante genérico. Nesse aspecto, Inocente mordida lembra Garota sombria caminha pela noite, mas a semelhança para aí; se o filme de Ana Lily Amirpour é sério e contemplativo, o de Landis é bem mais leve e dotado do típico senso de humor negro característico do diretor.
          Na trama, Marie conta suas andanças até a malfada noite em que se depara com Sal Macelli (Robert Loggia), o chefão do crime organizado na cidade. Ela o ataca, mas algo dá errado e Macelli acaba se tornando num vampiro que fica cada vez mais forte e insano, chegando ao ponto de pretender converter seus capangas em vampiros também. Cabe a Marie tentar reparar seu erro e impedir Macelli antes que ele transforme a cidade numa espécie de Transilvânia da máfia. Para isso ela conta com a ajuda de Joe Genaro (Anthony Lapaglia), policial que estava infiltrado na gangue de Macelli e com quem Marie acaba desenvolvendo um tórrido vínculo sexual. Aliás, o sexo é um conceito interessante neste filme, pois é uma necessidade tão imperativa para Marie quanto o sangue.
          Os vampiros de Inocente mordida não possuem os tradicionais caninos afiados; suas mordidas, que nada têm de inocentes, são selvagens, arrancando nacos de carne das gargantas das vítimas.  Seus olhos mudam de cor e ficam luminosos como faróis; além disso, quando expostos ao sol, sofrem uma fatal transformação (ponto para os ótimos efeitos práticos).
          Embora se situe no limiar entre o terror e a comédia, o humor de Inocente mordida não é escrachado ou pastelão; as cenas cômicas, como a adaptação de Macelli ao seu estado vampírico e a sequência do advogado no hospital são de um humor negro espontâneo e orgânico que lembra o estilo original de Um lobisomem americano em Londres. Para completar o pacote, o filme faz homenagem a dois clássicos vampirescos do cinema: Drácula, de 1931, com Bela Lugosi e Horror de Drácula, de 1958, protagonizado por Christopher Lee.


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[FILME] GAROTA SOMBRIA CAMINHA PELA NOITE (A Girl Walks Home Alone At Night, 2014)

quarta-feira, 4 de julho de 2018.

Como o próprio título sugere, Garota sombria caminha pela noite acompanha as andanças noturnas de uma moça sem nome pelas ruas de uma cidade iraniana fictícia chamada Bad City (nome que cai como uma luva para aquele lugar deprimente povoado de traficantes, viciados e prostitutas). A moça, como se vem a saber em pouco tempo, é uma vampira solitária que vaga à procura dos miseráveis que não faltam naquelas ruas, o que inclui desde crianças más até mafiosos. Posteriormente, ela conhece o problemático Arash (Arash Marandi), numa cena que inverte e ironiza o papel clássico de vampiro x donzela indefesa. A estranha ligação que se desenvolve entre eles é acentuada pelo amor em comum pela música (aliás, um ponto que merece destaque neste filme é a ótima trilha sonora).
Com direção de Ana Lily Amirpour, Garota sombria caminha pela noite rapidamente ganhou status de cult, e chama a atenção por ser original utilizando recursos simples, começando por optar pela filmagem em preto e branco, o que contribui para dar a sugestão de ambiente decadente e mórbido, mesmo nas cenas diurnas. Além disso, reforça a ideia de que aquele ambiente é mesmo o Irã, quando na verdade este é um filme americano. O fato de ter sido filmado em farsi acentua ainda mais o “embuste”.
          Quanto à vampira,  merece particular destaque, primeiro pela atuação de Sheila Vand; ela tem poucas falas, mas seus olhares, gestos e até silêncios são carregados de uma expressividade impressionante. Outro aspecto interessante é a representação do vampiro aqui; a garota só aparece à noite, o que evidencia ser uma sanguessuga à moda antiga (embora não haja qualquer referência a suas origens). Ela também não ingere nada, além de sangue e possui caninos retráteis semelhantes aos dos vampiros de True Blood. Assim como não explica a origem vampírica da garota, o filme não introduz e nem segue uma receita para a conversão em vampiro: ela foi mordida? Ou o vampiro é uma espécie, e, portanto, a garota já nasceu assim? Não acho que essas explicações tenham feito falta, porque fica claro que a intenção do filme não é abordar a mitologia vampiresca; isso parece não ter importância para a diretora, mais preocupada em inserir um subtexto fortemente feminista na obra. O fato de a garota ser a única vampira no filme evidencia que Garota sombria caminha pela noite é, antes de qualquer coisa, um drama sobre solidão e desajuste social temperado com o sobrenatural.
          Com um ritmo lento que remete a Deixa Ela Entrar e Martin, este filme é mais um dos que podem desagradar aqueles que esperam ação e carnificina; não que a garota aqui seja sutil ou politicamente correta na hora de deixar seus impulsos sanguinários virem à tona: muito pelo contrário! Porém, é uma produção mais contemplativa, que sobrepõe o vazio existencial e a – talvez – descoberta do amor às cenas sangrentas e grotescas.

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[FILME] MARTIN (Martin, 1977)

segunda-feira, 25 de junho de 2018.

Escrito e dirigido por ninguém menos que George Romero (ele mesmo, o “pai dos zumbis”), Martin infelizmente não carrega a popularidade e a fama dos clássicos do cineasta, como A noite dos mortos-vivos ou Dia dos mortos. Apesar disso, foi aclamado pela crítica como um dos trabalhos mais originais na abordagem do vampirismo e o próprio Romero chegou a afirmar que se trata do seu melhor filme.
O que define um vampiro? Ter uma sede incontrolável por sangue humano? Transformar-se em morcego? Ter caninos longos e afiados? Dormir num caixão? Temer símbolos religiosos e alho? Romero descontrói toda essa mitologia e reduz o vampirismo praticamente a um status patológico no limiar entre a paranoia e a esquizofrenia.
Na história acompanhamos o excêntrico personagem-título Martin (John Amplas), que acredita ser um vampiro, resultado de uma maldição que está na sua família há muitas gerações. Essa crença é corroborada por Cuda (Lincoln Maazel), um primo seu, que realmente acredita que Martin é um Nosferatu e, apesar de levá-lo para morar consigo, tem a casa cheia de crucifixos e réstias de alho, artigos que na mentalidade dele podem protegê-lo e suprimir os impulsos vampirescos de Martin enquanto ele vive ali. Aliás, se observarmos o filme como um retrato de distúrbios mentais, perceberemos que Martin não é o único neurótico da família; o final do filme, chocante e imprevisível, diga-se de passagem, deixa claro o que já estava subentendido do fanatismo supersticioso de Cuda.
          Logo na introdução do filme vemos Martin atacando uma vítima que viaja com ele num trem; metodicamente, ele injeta uma droga numa mulher, imobilizando-a e posteriormente fazendo sexo com ela. Só então ele utiliza uma lâmina para fazer um corte longitudinal num dos braços dela, alimentando-se do sangue que jorra dali. Tudo isso é feito com a mulher ainda inerte pelo efeito da injeção; terminada a refeição, Martin se livra das evidências de sua presença ali e desaparece (não literalmente, evaporando ou virando névoa como Drácula: simplesmente saindo sorrateiro do vagão). Talvez este parágrafo soe muito “spoilerento”, mas achei importante detalhar o modus operandi de Martin porque ao longo do filme ele fará novas vítimas seguindo esse processo meticulosamente.
          É interessante como Romero trabalha a associação entre sexo e alimentação vampiresca; desde clássicos, como o Drácula do Coppola até produções modernas, como a série True Blood, a mordida e o ato de se alimentar têm uma óbvia conotação sexual, erótica. As vítimas de Martin são invariavelmente mulheres atraentes e, sendo ele tímido e introvertido, a princípio só consegue obter alguma satisfação sexual com alguém inconsciente. Uma coisa completa a outra. 
        A “geração ZZZ” (aquela para quem um filme de vampiro precisa ser obrigatoriamente um espetáculo sangrento ao estilo 30 dias de noite ou Vampiros de John Carpenter para ser considerado “bom”) pode considerar Martin um filme maçante e vazio, mas ao se deixar levar por essa impressão superficial estarão deixando de apreciar um ótimo trabalho de Romero, diferente de tudo o que ele já fez. Aqui ele mescla um horror original, crítica alegórica ao preconceito e à intolerância e doses generosas de drama psicológico e existencial conforme a perspectiva de quem assiste.

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[QUADRINHOS] INTERVIEW WITH THE VAMPIRE (1991 - 1994)

         Publicada pela Innovation Comics, Interview with the vampire foi a primeira transposição do romance homônimo de Anne Rice para out...