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[LIVRO] A ÚLTIMA VAMPIRA (The Last Vampire, 2001)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019.
A última vampira é a sequência do romance neogótico Fome de Viver (The Hunger), publicado e adaptado para o cinema na década de 1980 (sobre o filme, clique AQUI). Diferindo do final do filme, no qual a protagonista e milenar vampira Miriam Blaylock morre (numa cena memorável), o livro tem um desfecho mais “otimista” para a personagem, possibilitando seu retorno nesta continuação.
Publicado vinte anos depois de Fome de viver, a trama de A última vampira também se passa duas décadas depois dos eventos daquele livro, começando com Miriam viajando à Ásia (especificamente, a Bangcoc) para participar do Conclave, uma espécie de conferência centenária na qual os guardadores (como são chamados os vampiros) se reúnem para realizar suas cerimônias secretas e discutir o futuro do seu “rebanho”, isto é, os seres humanos.
Entretanto, ao chegar ao local da reunião, ela descobre que um experiente caçador de vampiros financiado pela CIA orquestrou a destruição do “covil” asiático e de todos os guardadores que ali se encontravam. Miriam parte então para a França, a fim de alertar os europeus do risco que a espécie está correndo, com um exterminador que agora conhece as fraquezas e segredos deles. Em Paris, uma nova carnificina ocorre, da qual Miriam escapa por pouco, conseguindo retornar à América, mas ainda com o caçador – Paul Ward – no seu encalço. À medida que a trama avança, percebe-se que os destinos de Miriam e Paul estão fatalmente ligados por uma circunstância bizarra cujas consequências atingirão ambos de forma imprevisível – pelo menos imprevisível para eles.
          Se, devido à abordagem elegante, sombria e acentuadamente homoerótica, Fome de viver tinha certas similaridades com as obras de Anne Rice, neste segundo livro tais semelhanças são ainda mais perceptíveis, às vezes parecendo uma “versão lésbica” de Entrevista com o Vampiro. O trio de vampiras que protagoniza o livro tem uma curiosa correspondência com o trio central do primeiro volume das Crônicas Vampirescas: Miriam, poderosa e influente, lembra Lestat; Sarah, a amante de Miriam, lembra muito Louis, pois sofre de uma eterna crise de consciência por ter que tirar vidas humanas para manter sua existência amaldiçoada; Leonore, por sua vez, a nova cria de Miriam, é fútil, impetuosa e inconsequente como Cláudia.
         Entretanto, essa semelhança com Rice não desabona o livro de Strieber de sua própria originalidade, pois aqui o autor (sim, ao contrário do que muita gente pensa, Whitley é um homem) desenvolve conceitos muito interessantes para a sua mitologia vampírica, desde suas origens “alienígenas” até a presença e influência dos vampiros nos grandes impérios históricos.
          Aqui os vampiros são uma espécie distinta e muito anterior à humanidade, sendo que essa “condição” é hereditária e, portanto, não transmissível através da mordida ou da troca de sangue, como é tradicionalmente representado na literatura e no cinema. Em relação à troca de sangue, o que acontece é que quando um vampiro o dá a um ser humano, este passa a ter a mesma sede de sangue e tem sua vida prolongada em séculos; porém, há um alto preço a pagar por essa dádiva – que mais tarde revela-se uma maldição: depois de levar uma vida excepcionalmente longa, o prazo de validade do humano “infectado” acaba e ele se deteriora transformando-se em um “cadáver vivo”, incapaz de morrer. Ao longo dos séculos, Miriam tem inúmeros amantes, aos quais ela ludibria dando-lhes seu sangue para prolongar-lhes a vida; quando eles se tornam essas múmias, ela os tranca em caixões que guarda no sótão por toda a eternidade.
          Um outro aspecto interessante na mitologia de Strieber é o sexo vampírico.  Diferente das obras de Anne Rice, nas quais o erotismo dos vampiros transcende a sexualidade humana, em A última vampira a abordagem sexual é mais carnal e explícita, como acontece nos livros de Charlaine Harris protagonizados por Sookie Stackhouse e, principalmente, em sua adaptação televisiva, True Blood. Os vampiros de Strieber podem se reproduzir entre si, e essa é a única forma de gerar novos e “verdadeiros” vampiros; Miriam deseja procriar com sua espécie, mas também gosta de se envolver sexualmente com os humanos – homens ou mulheres – simplesmente pelo prazer que obtém dessas relações.
          Procurando opiniões de leitores que conheçam os dois livros, é comum encontrar reclamações de quem afirme que esta sequência não tem a sutileza do livro original – no qual a própria palavra “vampiro” nem era mencionada. De fato, A última vampira segue uma abordagem mais explícita e menos sugestiva. A ação (sexo e violência) recebe mais destaque do que a atmosfera da história, mas não posso dizer que isso me desagradou; prefiro pensar que o autor mudou a perspectiva para adaptar-se à nova era, onde a tendência é o apelo gráfico. O que me frustrou foi descobrir, tarde demais, que este livro tem mais uma sequência: Lilith’s Dream, não publicado no Brasil.

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[SÉRIE] THE STRAIN (2014 - 2017)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018.
Baseada na Trilogia da Escuridão (The Strain Trilogy), escrita por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, a série The Strain foi criada em colaboração com os próprios autores, que, além de produtores, também participaram eventualmente como roteirista (Hogan) e diretor (Del Toro). Composta por quatro temporadas, a série foi lançada já depois do hype causado pela moda vampiresca adolescente inaugurado por Crepúsculo. Isso foi uma decisão acertada, pois o vampirismo apresentado em The Strain está longe de ter quaisquer elementos românticos ou eróticos.
A série se inicia com a investigação de um estranho acidente envolvendo um avião que chega ao aeroporto JFK trazendo uma carga suspeita e a possibilidade de uma ameaça de risco biológico a bordo. Entra em cena o epidemiologista – e protagonista – Dr. Ephraim Goodweather (Corey Stoll) com sua parceira, Nora Martinez (Mia Maestro), tentando detectar a ameaça. O que eles presenciam é um espetáculo de horror que está além das regras da biologia e da lógica científica. Cada vez mais confusos e abismados, eles são forçados a deixar o ceticismo de lado quando conhecem o velho Abraham Setrakian (David Bradley), antiquário judeu e sobrevivente do Holocausto, que parece saber exatamente a natureza do mal que eles precisam enfrentar.
          Aos poucos, Eph, Nora, Setrakian e outros personagens veem uma praga de vampiros disseminar-se por Nova Iorque de forma irreversível e incontrolável, ultrapassando seus limites, espalhando-se pela América e ameaçando dominar todo o planeta em poucos dias. A série se assemelha às histórias de apocalipse zumbi, como os filmes de George Romero e a série The Walking Dead, substituindo os cadáveres famintos por carne humana pelos bebedores de sangue. Nesse aspecto, a semelhança maior, entretanto, é com o clássico livro Eu sou a Lenda, de Richard Matheson, que fala de um futuro pessimista onde também uma praga vampírica assola o planeta.
          É interessante que o vampirismo aqui é representado sob uma perspectiva biológica, como uma verdadeira epidemia altamente contagiosa. Os vampiros transmitem a “infecção” através de mordidas dadas, não da forma clássica (caninos cravados no pescoço), mas por meio de um tipo de ferrão muscular que ejetam da boca no momento de atacar. Esse elemento, em particular, lembra bastante o modo como os vampiros atacam em Blade 2, filme dirigido por Del Toro e que parece ter servido como inspiração parcial na concepção de The Strain.
          Através da picada, o vampiro – chamado aqui de strigoi – transmite uma espécie de verme que se multiplica rapidamente no corpo do hospedeiro até transformá-lo em chupador de sangue. Durante a transição, o hospedeiro passa por mudanças drásticas: perde os cabelos, fica pálido e hipersensível à luz solar, seus órgãos genitais desaparecem, suas orelhas e dentes incisivos crescem e ficam pontudos. No fim, o strigoi fica com uma aparência que remete ao clássico Nosferatu.
         Entretanto, o elemento sobrenatural também faz parte da mitologia criada por Del Toro e Hogan: isso fica claro pelo fato de que os vampiros aqui são todos comandados por um ser primordial conhecido pelo nome genérico de “Mestre”, o qual, por sua vez, é um renegado dos Antigos, os primeiros vampiros da Terra. O Mestre mantém uma forte conexão mental com suas "crias", podendo, além de controlá-los por telepatia, enxergar literalmente através dos olhos deles.
          Mais detalhes sobre a trama serão dados no post sobre a trilogia literária, mas, de modo geral, a série segue o caminho traçado pelos livros com um nível de fidelidade oscilante: a primeira temporada é muitíssimo fiel ao primeiro livro, Noturno; a segunda e a terceira temporada tomam certas liberdades em relação ao roteiro, mas ainda se mantêm no contexto original; a quarta e última temporada se esforça para mesclar a originalidade e a fidelidade adaptando o último livro, Noite eterna.
          Além de ser uma série sangrenta que explora o lado grotesco dos vampiros (à maneira de 30 Dias de Noite), The Strain também se destaca pelo seu apelo feminino. O programa possui duas personagens marcantes inexistentes nos livros, mas que fazem toda a diferença na tela: a hacker bissexual Dutch Velders (Ruta Gedmintas) e a vereadora Justine Feraldo (Samantha Mathis); cada uma com suas habilidades, elas compõem parte vital na resistência e  luta contra a dominação do Mestre.
          Se falta um motivo adicional para ver esta série, basta conferir Richard Sammel no papel de Thomas Eichhorst, o servo mais leal do Mestre, e um dos vilões mais cruéis e carismáticos já representados em produções vampirescas.



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[LIVRO] TRUE BLOOD E A FILOSOFIA (True Blood and Philosophy, 2010*)

sexta-feira, 16 de novembro de 2018.

*Publicação original

True Blood e a Filosofia faz parte de uma coleção de livros sobre a filosofia na cultura pop (cinema, literatura, TV, música, etc.) publicados no Brasil pela editora Madras (a maioria dos títulos) e pela Best Seller. Os livros são compostos basicamente por ensaios reunidos em partes temáticas. Especificamente este livro é organizado em cinco partes muito distintas, cada qual dividida em três capítulos dotados de títulos sugestivos e que, por sua vez, dividem-se em subtítulos para uma abordagem mais organizada dos temas. Os capítulos da obra são escritos por autores diferentes, o que torna a sua organização em partes separadas não apenas útil, mas muito necessária. Em resumo, o conteúdo do livro pode ser simplificado assim (na ordem em que se encontram):

1ª PARTE : A ÉTICA HUMANO-VAMPIRESCA 
1) Transformar ou não transformar: A Ética de fazer vampiros, de Christopher Robichaud, discorre acerca de temas como consentimento, respeito e ética, embasando-se principalmente na filosofia de Immanuel Kant e de seu conceito sobre o imperativo categórico.
2) Fantasiando-se e brincando de ser humano: Assimilação dos vampiros no playground humano, de Jennifer Culver, como o próprio título sugere, reflete sobre assimilação e aceitação através da obediência às regras sociais. Nessa parte, onde a participação do indivíduo na sociedade é representada como um jogo, os fundamentos são embasados na filosofia de John Huizinga e sua definição de jogo.
3) Bichos de estimação, gado e formas de vida superiores, de Ariadne Blayde e George Dunn, filosofa sobre os valores dos seres, quando postos em escala comparativa. Assim, questiona a superioridade dos seres humanos em relação aos demais animais e, naturalmente, da superioridade dos vampiros em relação aos seres humanos. Para tanto, utiliza ideias de Kant (autonomia moral), Aristóteles e Tomás de Aquino.

2ª PARTE: A POLÍTICA DE SER UM MORTO
1) Pacto de sangue: Os direitos e o contrato social vampiresco-humano, de Joseph J. Foy, argumenta sobre a questão dos direitos civis e suas implicações quando sociedade e religião entram em atrito. Aqui duas perspectivas filosóficas ganham destaque: o direito natural de John Locke e o contrato social de John Rawls.
2) Querida, se não podemos matar os humanos, para que serve ser um vampiro?, de William M. Curtis, lida com conceitos sobre política, cidadania e direitos de grupo, evocando princípios aristotélicos sobre política e ética, tolerância e autonomia, além do liberalismo de Kukathas, e a socialização e identidade vampirescas sob a alegoria de Thomas Nagel sobre experiências subjetivas.
3) Sangue de mentira: A política da artificialidade, de Bruce A, McClelland, reflete sobre a inserção social através da artificialidade, baseando-se no consumo do TruBlood como modo de formar consumidores ideais e vulneráveis, suprimindo as identidades.

3ª PARTE: EROS, SEXUALIDADE E GÊNERO
1) Saindo do caixão e do armário, de Patricia Brace e Robert Arp, toma por base o slogan God hates fangs e discorre sobre a natureza sexual vampiresca, suas analogias à homossexualidade e a intolerância social vinculada à religião. Faz também analogias à alimentação e sexo dos vampiros de True Blood.
2) Eu sou Sookie, ouça meu rugido!, de Lillian Craton e Kathryn Jonell, lida com feminismo e independência sexual (tema que é aprofundado na parte seguinte).
3) Sookie, Sigmund e o complexo comestível, de Ron Hirschbein traça paralelos entre a psicanálise freudiana e sua relação com sexo, instinto, controle, dentro e fora do universo de True Blood.

4ª PARTE: O NATURAL, O SOBRENATURAL E O DIVINO
1) Que venham os Bon Temps: Sacrifício, bodes expiatórios e bons tempos, de Kevin Corn e George Dunn, fala do desvio de culpa feito pela massa para manter sua união comunidade, a loucura coletiva da mentalidade de grupo descrita por Nietzsche e posta em prática na 2ª temporada de True Blood em seu culto dionisíaco.
2) Seriam os vampiros não naturais?, de Andrew Terjesen e Jenny Terjesen, explica conceitos de natural, inatural e imoral desde a semântica até as explicações mecanicistas de Descartes.
3) Deus odeia caninos?, de Adam Barkman, desmistifica algumas características religiosas associadas aos vampiros, discute o livre-arbítrio e algumas ideias filosóficas obsoletas, como de Allatius em relação a demônios e possessões.

5ª PARTE: A METAFÍSICA DOS SERES SOBRENATURAIS
1) O coração de um vampiro tem razões que o naturalismo científico é incapaz de compreender, de Susan Peppers-Bates e Josh Rust, debate ideias como existência e universo conforme a metafísica, mencionando Tales, o naturalismo científico e a vida sob o ponto de vista científico, bem como as implicações filosóficas decorrentes dessa perspectiva.
2) Escondendo segredos de Sookie, de Fred Curry, reflete sobre experiências subjetivas da consciência (os qualia) e cita, como exemplo, o espectro invertido de John Locke.
3) Vampiros, lobisomens e metamorfos: Quanto mais eles mudam, mais continuam os mesmos, de Sarah Grubb, encerra o livro retomando a discussão sobre identidade pessoal, levantando conjecturas por meio da teoria corporal, teoria da memória e continuidade psicológica.

True Blood e a filosofia é, a meu ver, um livro riquíssimo em referências e solidez nos argumentos, indispensável aos amantes da série, mas também a quem deseja se aventurar em variados aspectos da filosofia através da deliciosa alegoria vampiresca construída por Alan Ball a partir da obra de Charlaine Harris.

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[FILME] OS GAROTOS PERDIDOS (The Lost Boys, 1987)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018.
Após se divorciar, Lucy (Diane Wiest) se muda para a pequena cidade costeira de Santa Carla, na Califórnia, com seus dois filhos, Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim). Enquanto Sam, o caçula, se distrai frequentando a gibiteria dos Irmãos Frog, Michael vai a uma festa noturna na praia e conhece Star (Jami Gertz), uma misteriosa moça por quem se apaixona. O problema é que Star está ligada a uma gangue de jovens rebeldes e arruaceiros liderados por David (Kiefer Sutherland). Michael acaba se envolvendo com o bando e, pouco depois, passa por uma série de estranhas mudanças físicas e comportamentais sem explicação aparente. É aí que entram em ação os irmãos Alan (Jamison Newlander) e Edgar Frog (Corey Feldman): eles revelam a Sam que são, na verdade, matadores de vampiros, e que Michael está se tornando um desses terríveis seres da noite. Para ajudar o irmão a voltar a ser humano, Sam e os Irmãos Frog precisam encontrar e destruir o vampiro mestre, aquele cujo sangue Michael bebeu inadvertidamente.
          Ao apresentar vampiros no universo adolescente, pode-se dizer que Os garotos perdidos representou, para a cultura pop dos anos 80, o mesmo impacto causado pela série Crepúsculo no final da década de 2000. Evidentemente, a semelhança termina aí, pois os vampiros do filme de Joel Schumacher (o sujeito que mais tarde seria repudiado por destruir a carreira do Batman no cinema) nada têm do espírito politicamente correto característico daqueles sugadores do século XXI. Ao contrário, eles são selvagens e manipuladores, sendo também sedutores quando lhes convêm.
          Um dos aspectos que mais chamam a atenção em Os garotos perdidos é que o filme preserva o máximo de características da mitologia vampírica tradicional: aqui eles são feridos por cruzes, água benta e alho, queimam ao sol, podem ser destruídos com estacas no coração, não têm reflexo, precisam de convite para entrar nas casas, têm caninos pontiagudos, podem voar e dormem em lugares escuros, de preferência suspensos no teto como morcegos.
          Como foi dito no texto sobre Quando chega a escuridão, há bastante semelhança entre este e aquele filme: além de ambos serem de 1987, contam com uma trama romântica juvenil que ocorre no seio de uma gangue de vampiros marginais e sanguinários.
          Os garotos perdidos é, enfim, uma das produções vampirescas mais marcantes sobre o tema já realizadas, merecendo o status de cult que possui entre sua legião de fãs; é também um filme estiloso e nostálgico, com a cara dos anos 80 (os cortes de cabelo e penteados da turma de David são clássicos). Nos aspectos técnicos ele também se destaca, com boa direção de arte, maquiagem, efeitos e trilha sonora: é impossível ouvir “Cry little sister” sem associar a música imediatamente ao filme.

Mais de vinte anos depois do filme original, foram lançadas duas sequências inteiramente descartáveis:

Garotos perdidos 2: A Tribo (Lost boys: The Tribe, 2008) dirigido por P.J. Pesce, nada acrescenta de relevante ao primeiro. O único ator remanescente é Corey Feldman, mais uma vez na pele do caçador de vampiros Edgar Frog. Dessa vez ele é procurado por um jovem cuja irmã foi infectada e está prestes a se tornar uma morta-viva definitivamente. Afora as cenas gore, é um filme chato, insosso e sem personalidade. Ele tenta ousar com algumas cenas mais violentas e elaboradas do que as do original (algo fácil, já que os efeitos especiais evoluíram muito de lá para cá), mas tais cenas são poucas e não compensam o andamento desinteressante do filme. O apelo sexual gritante também não ajudou esta produção a se destacar positivamente.




Garotos perdidos 3: A Sede (Lost boys: The Thirst, 2010) dirigido por Dario Piana, é ligeiramente mais consistente que o segundo, mas igualmente dispensável. Aqui ao menos há algumas conexões com o primeiro filme: uma referência a Michael e Star, a presença de Alan e uma homenagem a Sam. Quanto à trama, à primeira vista parece ter sido tirada de True Blood, falando sobre o uso de sangue de vampiro como uma droga; entretanto, se na série da HBO o propósito do uso de “V” era o efeito alucinógeno e afrodisíaco, neste filme o objetivo é bem mais pretensioso... e clichê: formar um exército de vampiros a partir do sangue do “original”.


Pessoalmente, acho Os garotos perdidos um filme completo e irretocável; uma mistura muito bem dosada de terror, romance e comédia. O fato de as continuações terem sido lançadas duas décadas depois acabou por torná-las ainda mais descaracterizadas e distantes do original. Se, hipoteticamente, essas sequências tivessem sido produzidas ainda entre o final dos anos 80 e meados da década de 90, talvez fossem melhores, pois, mesmo com roteiros fracos, ao menos teriam aquela atmosfera saudosista e estilo marcante do primeiro.

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[FILME] KISS OF THE DAMNED (2012)

terça-feira, 30 de outubro de 2018.

Seduzida pelo escritor Paolo (Milo Ventimiglia, de Autópsia de um crime), a vampira Djuna (Joséphine de La Baume) não resiste à paixão recíproca, entregando-se ao rapaz depois de muito hesitar e revelar sua natureza condenada, tal como é representada no título do filme. A partir daí desenvolve-se uma ardente relação romântica entre eles, com Paolo cedendo à tentação de tornar-se ele também um vampiro para passar a eternidade com sua amada. Posteriormente, Djuna apresenta Paolo ao círculo de amigos dela, o qual se compõe basicamente de um grupo de vampiros “civilizados” supervisionados por Xenia (Anna Mouglalis). Paolo não encontra dificuldades ao lidar com esses vampiros que são, aliás, muito receptivos; o problema está na chegada repentina de Mimi (Roxane Mesquida), irmã de Djuna. Mimi também é uma vampira mas, ao contrário da irmã, que é culta, discreta e tem algum senso de moralidade, ela é o oposto, revelando-se perigosa e maligna, disposta a infernizar a vida de Djuna e pôr em risco toda a comunidade vampírica.
          Apesar de bem menos conhecido do que Amantes eternos (Only lovers left alive), de 2013, Kiss of the damned (com o título nacional genérico O beijo do vampiro) apresenta muitas similaridades com o filme de Jim Jarmusch, desde o tom gótico e melancólico que remete ao estilo de Fome de viver (comentado AQUI) até a trama central do casal de amantes vampiros atormentado pela irmã inconsequente e indiscreta da protagonista. Porém, particularmente considero Kiss of the damned mais ágil e menos contemplativo do que Amantes eternos, que achei francamente arrastado e cansativo, embora seja de fato melhor em termos técnicos.
          O vampirismo é tratado aqui numa perspectiva que concilia o tradicionalismo da mitologia (com vampiros que evocam sensualidade, queimam ao sol e têm presas) com elementos “modernos”, como o fato de que eles podem sobreviver ingerindo somente sangue animal (se optarem por esse estilo de vida) e são despojados da maioria dos “superpoderes” convencionais: eles não hipnotizam, não voam e com certeza não se transformam em morcegos.
          Dirigido por Xan Cassavetes, Kiss of the damned possui alguns méritos que valem a conferida; a fotografia é muito boa e a trilha sonora é bastante evolvente, contribuindo para a imersão do espectador naquela atmosfera de sedução e morte. Além disso, a produção abre espaço para algumas discussões relevantes no seu contexto, como culpa, redenção e moral.

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[SÉRIE] DIÁRIOS DE UM VAMPIRO (The Vampire Diaries, 2009 - 2017)

domingo, 21 de outubro de 2018.

Desenvolvida por Julie Plec e Kevin Williamson (roteirista da franquia Pânico), The Vampire Diaries foi ao ar no auge do modismo de Crepúsculo e, seguindo a cartilha das obras de Stephenie Meyer, esta série possui o mesmo apelo ao universo adolescente, além de vários outros pontos em comum. Temos aqui vampiros que não brilham no sol, mas que também são diurnos; há o triângulo amoroso da moda (menina boazinha dividida entre o moço politicamente correto e o bad boy); uma protagonista que passa grande parte do programa com a vulnerabilidade de ser humana, estando o tempo todo em perigo, o que funciona como pretexto para que precise ser salva constantemente pelos “vampiros-heróis”. Convenientemente, tal como em Crepúsculo, essa protagonista tem algo de especial, uma espécie de compensação que justifique sua importância na série e a consequente perseguição que ela sofre pela “elite” dos vampiros; as motivações e os contextos são diferentes, mas a dinâmica é a mesma.
          Fãs mais devotados à produção podem argumentar que, se alguém segue uma fórmula, é Crepúsculo, já que The Vampire Diaries é baseada numa série de livros que começou a ser lançada no início dos anos 90, ou seja, mais de uma década antes de Crepúsculo. Contudo, tal afirmação é apenas parcialmente justificável, pois quem conhece os livros de Lisa Jane Smith sabe que a versão televisiva adota pouquíssimos elementos das obras, preferindo seguir o caminho mais simples adotado por Meyer. Só para citar um exemplo presente no primeiro volume literário (publicado no Brasil como Diários do vampiro: O despertar), a protagonista Elena é loira, arrogante e fútil, mais preocupada em manter seu status de “rainha da escola” do que qualquer outra coisa; totalmente o oposto da Elena da série, que se tornou a típica donzela altruísta, frágil e chorona (nos moldes da Bella).  Nos extras dos DVDs da primeira temporada um dos produtores da série inclusive menciona essa necessidade que eles tiveram de alterar a representação da Elena, para que o público “gostasse” dela. A série também se afasta dos livros ao mudar inexplicavelmente nomes de lugares e pessoas (no livro, a cidade onde se passa a história chama-se Fell’s Church, enquanto na série é Mystic Falls; a família Smallwood do livro é Lockwood na série; a tia Judith da Elena no livro é Jenna na série). Também há vários cortes e alterações nas relações de parentesco e afinidade dos personagens, como o fato de que a Elena do livro tem uma irmã criança, enquanto na série ela tem um irmão adolescente problemático quase da idade dela.
          Dito isso, The Vampire Diaries acompanha o cotidiano da já mencionada cidade fictícia de Mystic Falls, na qual misteriosos eventos passam a acontecer após a chegada (na verdade, retorno) dos irmãos Salvatore. Eles são vampiros de personalidades opostas, unidos por um mesmo amor, trágico e imortal do passado. Stefan (Paul Wesley) é o irmão “bom”, que sofre a maldição de ser um assassino por natureza e martiriza-se com o drama existencial de já ter sido o “Estripador”; em contrapartida, Damon (Ian Somerhalder) é o irmão “mau”, que não vê problema em espalhar morte e diverte-se com sua condição tal como os vampiros de Os garotos perdidos e Quando chega a escuridão – aliás, esses dois filmes são citados na primeira temporada. Sendo tão diferentes, Stefan e Damon se odeiam e o único elo entre eles é Katherine, a criadora que converteu ambos em vampiros há mais de 160 anos. Depois da suposta morte de Katherine, a quem os Salvatore amavam, eles se afastam, guardando ressentimentos até o momento presente, quando conhecem a estudante Elena (Nina Dobrev). Os dois se apaixonam por ela, especialmente devido ao fato de que Elena é fisicamente idêntica a Katherine. Posteriormente é revelado que tal semelhança não é um acaso: Elena é, na verdade, uma doppelgänger (uma espécie de duplicata mística) de Katherine. Isso não é nenhuma discrepância ao universo da série, que apresenta uma grande coleção de seres sobrenaturais, desde os mais comuns, como bruxas e lobisomens, até os mais inusitados, como sereias e o próprio diabo, apresentados ao longo das temporadas.
          A série teve 8 temporadas e até a 5ª girava em torno da relação triangular Elena-Stefan-Damon, bem como as constantes ameaças sobrenaturais que rondam a cidade; a partir da 6ª, o programa passou a seguir um caminho tortuoso, dando mais espaço a personagens que até então ficavam restritos a coadjuvantes pouco desenvolvidos.
          A maioria dos vampiros dessa série sofre a inconveniência da luz solar, mas alguns deles burlam a regra ao utilizar amuletos forjados por bruxas; outros são imunes devido ao privilégio de fazer parte da família Original (aquela que, como o nome evidencia, originou a espécie). Grande parte da mitologia foi descartada: alho, crucifixos, água benta, dormir em caixões, reflexo em espelhos, tudo isso foi desconsiderado e até a dieta exclusiva de sangue foi reformulada (sangue é essencial, mas eles também podem comer comida “normal” e tomar bebidas alcoólicas à vontade). Em compensação, eles podem ser mortos com a clássica estaca e têm uma sensibilidade e fraqueza semelhante à que os vampiros de True Blood (comentada AQUI) têm por prata, mas não por esse metal e sim pela planta chamada verbena.
          Encerrando com uma opinião pessoal, achei The Vampire Diaries uma série interessante até a 4ª temporada, mas deixei de levá-la a sério depois disso, porque, a meu ver, ela cometeu os mesmos erros que True Blood nas últimas temporadas: dissolveu a trama principal, tomou rumos duvidosos e exagerou nas ramificações de tramas e personagens secundários sem importância. Contudo, isso não parece ter desanimado os fãs; tanto é que o programa ganhou dois spin-offs: The Originals, lançada em 2013, e Legacies, atualmente em produção.
                                                                               


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[FILME] O QUE FAZEMOS NAS SOMBRAS (What we do in the Shadows, 2014)

quinta-feira, 11 de outubro de 2018.

Quatro vampiros de idades, origens e personalidades diferentes moram na mesma casa, em Wellington, Nova Zelândia. Eles precisam constantemente adaptar sua condição vampírica às mudanças do mundo moderno e às tecnologias, bem como lidar com os próprios atritos entre si. Este é, basicamente, o conteúdo de O que fazemos nas sombras, que lembra a premissa da série Being Human. A diferença fundamental é que na série britânica da BBC (bem como no remake americano da SyFy) os seres sobrenaturais que dividem a mesma casa têm naturezas distintas: tratam-se de um vampiro, um lobisomem e uma fantasma. Outro aspecto notável é que, enquanto a série procura conciliar o drama e o humor, este filme é abertamente uma comédia de humor negro.
Com muita criatividade o filme, dirigido por Taika Waititi e Jemaine Clement (que também atuam) se apresenta como um documentário, no qual alguns cinegrafistas, devidamente “preparados” – o que inclui o uso de crucifixos – obtêm permissão para registrar o cotidiano dos vampiros Vladislav (Jemaine Clement), Viago (Taika Waititi), Petyr (Ben Fransham) e Deacon (Jontahan Brugh). Assim, temos uma visão subjetiva (que em alguns momentos até lembra o estilo found footage), onde acompanhamos a perspectiva dos cinegrafistas que, evidentemente, não “aparecem”.
          O que fazemos nas sombras satiriza a imagem arquetípica do vampiro no cinema em vários níveis, a começar pela própria representação de seus personagens: Vladislav é claramente inspirado no Drácula “real”, o Empalador, com um visual que remete ao de Gary Oldman no filme Drácula de Bram Stoker. Petyr, com sua aparência bizarra, careca, branco, praticamente mudo e dentuço, é inspirado no Nosferatu de Murnau; Deacon é o vampiro rebelde, do tipo “tô nem aí”, que lembra os sanguessugas jovens da década de 80, como Severen, de Quando chega a escuridão. Viago, por sua vez, muito engomado e afetado, é o típico almofadinha que poderia ter saído de Entrevista com o vampiro. Além desses personagens principais ainda há espaço para coadjuvantes, como é o caso de Nick (Cori Gonzales-Macuer), que representa o vampiro adolescente “moderno” (não é por acaso que ele diz ser “o vampiro de Crepúsculo”).
          Os vampiros deste filme têm os poderes e as fraquezas típicas, e além de ter de conviver com suas limitações, têm de enfrentar problemas clássicos, como sua rixa com os lobisomens, enfrentar caçadores de vampiros e até lidar com divergências com outros “clãs”; tem espaço até para referenciar o subgênero zumbi.
          De modo geral, O que fazemos nas sombras é um filme divertido, engraçado e inteligente que felizmente não se perde no besteirol gratuito. Atualmente estamos numa fase de reciclagem de ideias em que todo filme bem-sucedido deve ganhar sequência, remake, reboot ou versão para TV, de modo que este filme não é exceção: uma série derivada já está em produção. 


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[QUADRINHOS] INTERVIEW WITH THE VAMPIRE (1991 - 1994)

         Publicada pela Innovation Comics, Interview with the vampire foi a primeira transposição do romance homônimo de Anne Rice para out...