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[TRILOGIA] BLADE (1998 / 2002 / 2004)

terça-feira, 16 de abril de 2019.

Lançado no final dos anos 90, o primeiro filme de Blade é mais uma produção memorável daquela década riquíssima para o cinema vampiresco (só para citar alguns clássicos da época: Drácula de Bram StokerEntrevista com o vampiro e Um drink no inferno). O principal diferencial de Blade em relação às outras produções é que dessa vez temos uma abordagem mais voltada para a ação, nos moldes dos filmes de super-heróis. De fato, Blade é um personagem dos quadrinhos Marvel, criado por Marv Wolfman e Gene Colan. Caracterizado como um vampiro negro dotado de habilidades precisas no manejo de armas de fogo, lâminas (de onde lhe veio o codinome) e artes marciais, Blade (Wesley Snipes) é uma espécie de (anti)herói que dedica sua vida a exterminar os vampiros. Na mitologia do filme, os vampiros são imunes a “amenidades” como símbolos religiosos, de modo que, para destruí-los, os únicos meios são através da violência e armamentos que contenham prata, alho ou luz ultravioleta.
          Tendo sido transformado em vampiro antes de nascer (sua mãe foi atacada por um vampiro quando já estava grávida), Blade é apenas meio-vampiro, possuindo a força, rapidez e resistência dos vampiros, mas sendo imune à luz solar – razão pela qual ele é conhecido como Daywalker, “O Que Caminha de Dia”. Infelizmente para ele, Blade herdou a sede de sangue dos vampiros, sendo necessário que tome regularmente um soro inibidor preparado por Whistler (Kris Kristofferson), seu mentor e figura quase paterna.
          No universo de Blade existem os vampiros puros (que já nasceram assim, isto é, pertencem a uma linhagem) e os “não-puros”, ou seja, humanos que adquiriram essa condição através de mordida. É nesse último grupo que se encontra Deacon Frost (Stephen Dorff), o vilão deste filme. Humilhado por não ter ascendência pura, Frost planeja vingar-se da elite vampírica e adquirir poder absoluto através de um ritual profético no qual incorporará um deus vampiro ancestral invencível. A missão de Blade é impedir que Frost realize seu objetivo e provoque um apocalipse vampiro sem precedentes.
       De modo geral, Blade é um ótimo filme de ação com vampiros, com boas atuações – especialmente a de Snipes –, roteiro consistente e efeitos visuais muito bons (exceto o dos vampiros “inchando” e explodindo ao levar injeções de anticoagulante: aquilo dá vergonha alheia). Mas ainda assim Stephen Norrington se saiu melhor na direção do que David S. Goyer no terceiro filme.



A sequência de Blade foi dirigida por um Guillermo Del Toro já conhecido no meio hollywoodiano, e ele não decepciona aqui; na verdade, Blade 2: O Caçador de Vampiros é o melhor filme da trilogia. Os eventos se passam dois anos depois da trama anterior. Uma nova raça de vampiros mutantes surgiu, resultado de uma espécie de pandemia viral que torna os infectados quase invulneráveis, a não ser pela luz solar. Esses novos vampiros são muito mais primitivos e selvagens e, além de serem incontroláveis, representam perigo para os vampiros “normais”, pois se alimentam também deles, infectando-os. Na urgência de conter essa praga antes que ela dizime seu “povo”, o Lorde Damaskinos (Thomas Kretschmann) propõe uma trégua/aliança com Blade. Porém, como nosso herói badass bem tem motivos para desconfiar, Damaskinos e sua turma não estão sendo totalmente honestos.
          As cenas de ação e os efeitos visuais desse filme são eletrizantes, das coreografias das lutas aos espetáculos pirotécnicos, mas o mais interessante, sem dúvida, é a concepção dos “reapers” (como são chamados os vampiros mutantes). Eles lembram bastante os monstros criados por Del Toro e Chuck Hogan posteriormente no universo de The Strain: além de serem carecas e muito pálidos, suas bocas se abrem anormalmente com uma fenda que vai até o queixo, e eles infectam as vítimas através da língua, que possui uma espécie de ferrão.



Se o segundo filme foi melhor do que o primeiro, era de se esperar que o terceiro pelo menos mantivesse o nível do antecessor... coisa que passou longe de acontecer. É estranho que David S. Goyer, roteirista dos filmes anteriores, tenha errado tanto ao assumir o roteiro e a direção deste capítulo final da trilogia.
A ideia central de Blade Trinity até que é aceitável: um grupo de vampiros decide ressuscitar ninguém menos que Drácula, o vampiro original, com o objetivo de descobrir seu segredo para ser invencível e imune à luz solar, e, de quebra, fazer com que ele destrua Blade. Em contrapartida, um grupo de caçadores de vampiros que se autodenomina “Nightstalkers” está trabalhando no desenvolvimento de uma “cura” viral para o vampirismo, precisando da ajuda de Blade para infectar Drácula. Até aí, o filme vai bem; o problema é que a execução dessa ideia é péssima, desde a escolha de Dominic Purcell para o papel de Drácula (exceto quando ele está na sua forma monstruosa, parece que ele acabou de fazer um show de axé) até o roteiro cheio de situações forçadas e mal resolvidas levando a um final brega. Talvez o pior recurso desse filme tenha sido introduzir humor desnecessariamente; aliás, o personagem de Ryan Reynolds está o tempo todo fazendo piada, como se já estivesse ensaiando para ser Deadpool. Enfim, é um filme bem dispensável, válido apenas para dar uma ideia de fechamento à trilogia.

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[LISTA] 5 PIORES SEQUÊNCIAS DE FILMES DE VAMPIROS

terça-feira, 12 de março de 2019.

Uma seleção de algumas das continuações mais descartáveis do cinema, seja porque os filmes originais não precisavam de sequências, seja porque mereciam coisa bem melhor.



1. A RAINHA DOS CONDENADOS (Queen of the Damned, 2002)
Direção: Michael Rymer

Para começar, um filme que já está na lista 10 filmes de vampiro para morrer antes de ver.
De longe o pior desta lista, particularmente considero esta a pior sequência/adaptação que já vi. Diferente do primor com que Anne Rice e Neil Jordan levaram às telas a adaptação de Entrevista com o vampiro, esta sequência já começa errando ao tentar adaptar os dois livros seguintes das Crônicas Vampirescas (O vampiro Lestat e A Rainha dos Condenados, ambos bastante longos) num filme de pouco mais de uma hora e meia. O resultado é deplorável. A única coisa que se salva é a trilha sonora.




2. UM DRINK NO INFERNO 2: TEXAS SANGRENTO (From Dusk Till Dawn 2: Texas Bloody Money, 1999)
Direção: Scott Spiegel

O filme original até deixa pontas soltas para uma sequência, mas este filme não se preocupa em amarrá-las; na verdade, o único vínculo com o filme anterior é uma cena no Titty Twister, onde ocorre um novo ataque de vampiros a uma quadrilha. E ainda assim é uma cena sem noção, já que é “coordenada” pelo vampiro-barman interpretado por Danny Trejo (e que morreu no filme original). Outra incoerência é que desconsideraram a mitologia criada no anterior, onde os vampiros eram meio reptilianos; aqui eles têm a aparência "normal" dos de Os garotos perdidos.




3. GAROTOS PERDIDOS 2: A TRIBO (Lost Boys 2: The Tribe, 2008)

Direção: P. J. Pesce
Uma continuação que leva quase vinte anos para ser lançada já diz muito sobre si mesma. Para tentar compensar a falta de carisma dos personagens (inclusive do único remanescente do filme original, Edgar Frog), a produção exagera na sexualização e só se lembra do derramamento de sangue quando já se passaram 2/3 da duração.









4. BLADE TRINITY (2004)
Direção: David S. Goyer

O primeiro Blade é um bom filme, mas Guillermo Del Toro conseguiu a proeza de realizar uma sequência excelente; já David S. Goyer deu com os burros n’água e fechou a trilogia de forma precária. O maior problema aqui é o roteiro fraco cheio de clichês, com personagens mal construídos e caricatos; nem mesmo o rei dos vampiros foi poupado: Drácula foi representado com uma aparência de cantor latino. Vale, quando muito, pelas cenas de ação pirotécnicas.






5. DRÁCULA 2: A ASCENSÃO (Dracula 2: Ascension, 2003)

Direção: Patrick Lussier
Apesar de não ter sido nenhum sucesso de crítica ou público, achei Drácula 2000 um filme bem razoável; o mesmo não pode ser dito desta sequência horrenda. O roteiro tem tantas falhas e absurdos, o andamento é tão arrastado e os personagens são tão patéticos (inclusive o Drácula oxigenado da vez) que é um tormento assisti-lo até o final. Pelo menos tem o “mérito” de ser curto.

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[FILME] DRÁCULA 2000 (Dracula 2000, 2000)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019.

Como o título indica, Drácula 2000 traz o imortal personagem de Bram Stoker para o novo milênio, fazendo-o despertar nos dias atuais (considerando o ano da produção), em busca de sangue, sexo... e um amor que é literalmente parte de si. A história se passa entre Londres e Nova Orleans – cenários clássicos para os vampiros de Stoker e Rice, respectivamente. O filme começa com a chegada fatídica do Demeter a Londres em 1897; há um avanço para o ano 2000 e acompanhamos um assalto minuciosamente orquestrado por ladrões hábeis em driblar segurança eletrônica. Eles invadem a loja de antiguidades de Van Helsing (Christopher Plummer) e encontram um caixão de prata hermeticamente lacrado e trancafiado num cofre nos subterrâneos da loja. Acreditando ser onde estão guardados os pertences mais valiosos do proprietário, eles levam o caixão e acabam inadvertidamente abrindo-o, libertando – e alimentando – novamente o poderoso vampiro, aqui interpretado por Gerard Butler. Drácula parte então para a América, movido por uma fixação pela humana Mary (Justine Waddell), com quem compartilha uma estranha ligação mental. Cabe a Van Helsing, acompanhado de seu incrédulo assistente Simon (Jonny Lee Miller) a missão de impedir que o vampiro concretize seus planos.
          Apesar de não ser uma adaptação direta, este filme, dirigido por Patrick Lussier, faz várias referências ao livro Drácula: além da óbvia presença de Van Helsing – que diz ser descendente do personagem original – sua loja tem o nome Carfax; Drácula transforma especificamente três mulheres, que se comportam como suas “noivas”; ele pode se transformar em lobo e morcego; a mocinha do filme trabalha e mora com uma amiga chamada Lucy e uma das vampiras é tratada por um certo Dr. Seward. Por sua vez, a perseguição de Drácula a Mary lembra a fixação apaixonada do personagem por Mina no filme de Coppola (comentado AQUI).
          Em relação à mitologia vampírica tratada neste filme, vemos que os vampiros não têm reflexos, podem escalar paredes, dar grandes saltos, seduzir, são sensíveis a prata, queimam ao sol e temem crucifixos (a menos que sejam ateus, como é explicado “na prática”); quanto às formas de matá-los, a regra da estaca no coração continua válida, mas é preferível a decapitação.
         Um ponto original nessa produção é a ideia de explorar a identidade de Drácula, o que tem o duplo efeito de buscar uma nova origem para o mito e, consequentemente, uma justificativa para as suas maiores fraquezas aqui: símbolos cristãos, prata e luz solar. Associar o vampirismo a uma maldição infligida a um personagem bíblico é uma ideia realmente interessante e plausível.

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[LIVRO] A ÚLTIMA VAMPIRA (The Last Vampire, 2001)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019.
A última vampira é a sequência do romance neogótico Fome de Viver (The Hunger), publicado e adaptado para o cinema na década de 1980 (sobre o filme, clique AQUI). Diferindo do final do filme, no qual a protagonista e milenar vampira Miriam Blaylock morre (numa cena memorável), o livro tem um desfecho mais “otimista” para a personagem, possibilitando seu retorno nesta continuação.
Publicado vinte anos depois de Fome de viver, a trama de A última vampira também se passa duas décadas depois dos eventos daquele livro, começando com Miriam viajando à Ásia (especificamente, a Bangcoc) para participar do Conclave, uma espécie de conferência centenária na qual os guardadores (como são chamados os vampiros) se reúnem para realizar suas cerimônias secretas e discutir o futuro do seu “rebanho”, isto é, os seres humanos.
Entretanto, ao chegar ao local da reunião, ela descobre que um experiente caçador de vampiros financiado pela CIA orquestrou a destruição do “covil” asiático e de todos os guardadores que ali se encontravam. Miriam parte então para a França, a fim de alertar os europeus do risco que a espécie está correndo, com um exterminador que agora conhece as fraquezas e segredos deles. Em Paris, uma nova carnificina ocorre, da qual Miriam escapa por pouco, conseguindo retornar à América, mas ainda com o caçador – Paul Ward – no seu encalço. À medida que a trama avança, percebe-se que os destinos de Miriam e Paul estão fatalmente ligados por uma circunstância bizarra cujas consequências atingirão ambos de forma imprevisível – pelo menos imprevisível para eles.
          Se, devido à abordagem elegante, sombria e acentuadamente homoerótica, Fome de viver tinha certas similaridades com as obras de Anne Rice, neste segundo livro tais semelhanças são ainda mais perceptíveis, às vezes parecendo uma “versão lésbica” de Entrevista com o Vampiro. O trio de vampiras que protagoniza o livro tem uma curiosa correspondência com o trio central do primeiro volume das Crônicas Vampirescas: Miriam, poderosa e influente, lembra Lestat; Sarah, a amante de Miriam, lembra muito Louis, pois sofre de uma eterna crise de consciência por ter que tirar vidas humanas para manter sua existência amaldiçoada; Leonore, por sua vez, a nova cria de Miriam, é fútil, impetuosa e inconsequente como Cláudia.
         Entretanto, essa semelhança com Rice não desabona o livro de Strieber de sua própria originalidade, pois aqui o autor (sim, ao contrário do que muita gente pensa, Whitley é um homem) desenvolve conceitos muito interessantes para a sua mitologia vampírica, desde suas origens “alienígenas” até a presença e influência dos vampiros nos grandes impérios históricos.
          Aqui os vampiros são uma espécie distinta e muito anterior à humanidade, sendo que essa “condição” é hereditária e, portanto, não transmissível através da mordida ou da troca de sangue, como é tradicionalmente representado na literatura e no cinema. Em relação à troca de sangue, o que acontece é que quando um vampiro o dá a um ser humano, este passa a ter a mesma sede de sangue e tem sua vida prolongada em séculos; porém, há um alto preço a pagar por essa dádiva – que mais tarde revela-se uma maldição: depois de levar uma vida excepcionalmente longa, o prazo de validade do humano “infectado” acaba e ele se deteriora transformando-se em um “cadáver vivo”, incapaz de morrer. Ao longo dos séculos, Miriam tem inúmeros amantes, aos quais ela ludibria dando-lhes seu sangue para prolongar-lhes a vida; quando eles se tornam essas múmias, ela os tranca em caixões que guarda no sótão por toda a eternidade.
          Um outro aspecto interessante na mitologia de Strieber é o sexo vampírico.  Diferente das obras de Anne Rice, nas quais o erotismo dos vampiros transcende a sexualidade humana, em A última vampira a abordagem sexual é mais carnal e explícita, como acontece nos livros de Charlaine Harris protagonizados por Sookie Stackhouse e, principalmente, em sua adaptação televisiva, True Blood. Os vampiros de Strieber podem se reproduzir entre si, e essa é a única forma de gerar novos e “verdadeiros” vampiros; Miriam deseja procriar com sua espécie, mas também gosta de se envolver sexualmente com os humanos – homens ou mulheres – simplesmente pelo prazer que obtém dessas relações.
          Procurando opiniões de leitores que conheçam os dois livros, é comum encontrar reclamações de quem afirme que esta sequência não tem a sutileza do livro original – no qual a própria palavra “vampiro” nem era mencionada. De fato, A última vampira segue uma abordagem mais explícita e menos sugestiva. A ação (sexo e violência) recebe mais destaque do que a atmosfera da história, mas não posso dizer que isso me desagradou; prefiro pensar que o autor mudou a perspectiva para adaptar-se à nova era, onde a tendência é o apelo gráfico. O que me frustrou foi descobrir, tarde demais, que este livro tem mais uma sequência: Lilith’s Dream, não publicado no Brasil.

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[SÉRIE] THE STRAIN (2014 - 2017)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018.
Baseada na Trilogia da Escuridão (The Strain Trilogy), escrita por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, a série The Strain foi criada em colaboração com os próprios autores, que, além de produtores, também participaram eventualmente como roteirista (Hogan) e diretor (Del Toro). Composta por quatro temporadas, a série foi lançada já depois do hype causado pela moda vampiresca adolescente inaugurado por Crepúsculo. Isso foi uma decisão acertada, pois o vampirismo apresentado em The Strain está longe de ter quaisquer elementos românticos ou eróticos.
A série se inicia com a investigação de um estranho acidente envolvendo um avião que chega ao aeroporto JFK trazendo uma carga suspeita e a possibilidade de uma ameaça de risco biológico a bordo. Entra em cena o epidemiologista – e protagonista – Dr. Ephraim Goodweather (Corey Stoll) com sua parceira, Nora Martinez (Mia Maestro), tentando detectar a ameaça. O que eles presenciam é um espetáculo de horror que está além das regras da biologia e da lógica científica. Cada vez mais confusos e abismados, eles são forçados a deixar o ceticismo de lado quando conhecem o velho Abraham Setrakian (David Bradley), antiquário judeu e sobrevivente do Holocausto, que parece saber exatamente a natureza do mal que eles precisam enfrentar.
          Aos poucos, Eph, Nora, Setrakian e outros personagens veem uma praga de vampiros disseminar-se por Nova Iorque de forma irreversível e incontrolável, ultrapassando seus limites, espalhando-se pela América e ameaçando dominar todo o planeta em poucos dias. A série se assemelha às histórias de apocalipse zumbi, como os filmes de George Romero e a série The Walking Dead, substituindo os cadáveres famintos por carne humana pelos bebedores de sangue. Nesse aspecto, a semelhança maior, entretanto, é com o clássico livro Eu sou a Lenda, de Richard Matheson, que fala de um futuro pessimista onde também uma praga vampírica assola o planeta.
          É interessante que o vampirismo aqui é representado sob uma perspectiva biológica, como uma verdadeira epidemia altamente contagiosa. Os vampiros transmitem a “infecção” através de mordidas dadas, não da forma clássica (caninos cravados no pescoço), mas por meio de um tipo de ferrão muscular que ejetam da boca no momento de atacar. Esse elemento, em particular, lembra bastante o modo como os vampiros atacam em Blade 2, filme dirigido por Del Toro e que parece ter servido como inspiração parcial na concepção de The Strain.
          Através da picada, o vampiro – chamado aqui de strigoi – transmite uma espécie de verme que se multiplica rapidamente no corpo do hospedeiro até transformá-lo em chupador de sangue. Durante a transição, o hospedeiro passa por mudanças drásticas: perde os cabelos, fica pálido e hipersensível à luz solar, seus órgãos genitais desaparecem, suas orelhas e dentes incisivos crescem e ficam pontudos. No fim, o strigoi fica com uma aparência que remete ao clássico Nosferatu.
         Entretanto, o elemento sobrenatural também faz parte da mitologia criada por Del Toro e Hogan: isso fica claro pelo fato de que os vampiros aqui são todos comandados por um ser primordial conhecido pelo nome genérico de “Mestre”, o qual, por sua vez, é um renegado dos Antigos, os primeiros vampiros da Terra. O Mestre mantém uma forte conexão mental com suas "crias", podendo, além de controlá-los por telepatia, enxergar literalmente através dos olhos deles.
          Mais detalhes sobre a trama serão dados no post sobre a trilogia literária, mas, de modo geral, a série segue o caminho traçado pelos livros com um nível de fidelidade oscilante: a primeira temporada é muitíssimo fiel ao primeiro livro, Noturno; a segunda e a terceira temporada tomam certas liberdades em relação ao roteiro, mas ainda se mantêm no contexto original; a quarta e última temporada se esforça para mesclar a originalidade e a fidelidade adaptando o último livro, Noite eterna.
          Além de ser uma série sangrenta que explora o lado grotesco dos vampiros (à maneira de 30 Dias de Noite), The Strain também se destaca pelo seu apelo feminino. O programa possui duas personagens marcantes inexistentes nos livros, mas que fazem toda a diferença na tela: a hacker bissexual Dutch Velders (Ruta Gedmintas) e a vereadora Justine Feraldo (Samantha Mathis); cada uma com suas habilidades, elas compõem parte vital na resistência e  luta contra a dominação do Mestre.
          Se falta um motivo adicional para ver esta série, basta conferir Richard Sammel no papel de Thomas Eichhorst, o servo mais leal do Mestre, e um dos vilões mais cruéis e carismáticos já representados em produções vampirescas.



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[LIVRO] TRUE BLOOD E A FILOSOFIA (True Blood and Philosophy, 2010*)

sexta-feira, 16 de novembro de 2018.

*Publicação original

True Blood e a Filosofia faz parte de uma coleção de livros sobre a filosofia na cultura pop (cinema, literatura, TV, música, etc.) publicados no Brasil pela editora Madras (a maioria dos títulos) e pela Best Seller. Os livros são compostos basicamente por ensaios reunidos em partes temáticas. Especificamente este livro é organizado em cinco partes muito distintas, cada qual dividida em três capítulos dotados de títulos sugestivos e que, por sua vez, dividem-se em subtítulos para uma abordagem mais organizada dos temas. Os capítulos da obra são escritos por autores diferentes, o que torna a sua organização em partes separadas não apenas útil, mas muito necessária. Em resumo, o conteúdo do livro pode ser simplificado assim (na ordem em que se encontram):

1ª PARTE : A ÉTICA HUMANO-VAMPIRESCA 
1) Transformar ou não transformar: A Ética de fazer vampiros, de Christopher Robichaud, discorre acerca de temas como consentimento, respeito e ética, embasando-se principalmente na filosofia de Immanuel Kant e de seu conceito sobre o imperativo categórico.
2) Fantasiando-se e brincando de ser humano: Assimilação dos vampiros no playground humano, de Jennifer Culver, como o próprio título sugere, reflete sobre assimilação e aceitação através da obediência às regras sociais. Nessa parte, onde a participação do indivíduo na sociedade é representada como um jogo, os fundamentos são embasados na filosofia de John Huizinga e sua definição de jogo.
3) Bichos de estimação, gado e formas de vida superiores, de Ariadne Blayde e George Dunn, filosofa sobre os valores dos seres, quando postos em escala comparativa. Assim, questiona a superioridade dos seres humanos em relação aos demais animais e, naturalmente, da superioridade dos vampiros em relação aos seres humanos. Para tanto, utiliza ideias de Kant (autonomia moral), Aristóteles e Tomás de Aquino.

2ª PARTE: A POLÍTICA DE SER UM MORTO
1) Pacto de sangue: Os direitos e o contrato social vampiresco-humano, de Joseph J. Foy, argumenta sobre a questão dos direitos civis e suas implicações quando sociedade e religião entram em atrito. Aqui duas perspectivas filosóficas ganham destaque: o direito natural de John Locke e o contrato social de John Rawls.
2) Querida, se não podemos matar os humanos, para que serve ser um vampiro?, de William M. Curtis, lida com conceitos sobre política, cidadania e direitos de grupo, evocando princípios aristotélicos sobre política e ética, tolerância e autonomia, além do liberalismo de Kukathas, e a socialização e identidade vampirescas sob a alegoria de Thomas Nagel sobre experiências subjetivas.
3) Sangue de mentira: A política da artificialidade, de Bruce A, McClelland, reflete sobre a inserção social através da artificialidade, baseando-se no consumo do TruBlood como modo de formar consumidores ideais e vulneráveis, suprimindo as identidades.

3ª PARTE: EROS, SEXUALIDADE E GÊNERO
1) Saindo do caixão e do armário, de Patricia Brace e Robert Arp, toma por base o slogan God hates fangs e discorre sobre a natureza sexual vampiresca, suas analogias à homossexualidade e a intolerância social vinculada à religião. Faz também analogias à alimentação e sexo dos vampiros de True Blood.
2) Eu sou Sookie, ouça meu rugido!, de Lillian Craton e Kathryn Jonell, lida com feminismo e independência sexual (tema que é aprofundado na parte seguinte).
3) Sookie, Sigmund e o complexo comestível, de Ron Hirschbein traça paralelos entre a psicanálise freudiana e sua relação com sexo, instinto, controle, dentro e fora do universo de True Blood.

4ª PARTE: O NATURAL, O SOBRENATURAL E O DIVINO
1) Que venham os Bon Temps: Sacrifício, bodes expiatórios e bons tempos, de Kevin Corn e George Dunn, fala do desvio de culpa feito pela massa para manter sua união comunidade, a loucura coletiva da mentalidade de grupo descrita por Nietzsche e posta em prática na 2ª temporada de True Blood em seu culto dionisíaco.
2) Seriam os vampiros não naturais?, de Andrew Terjesen e Jenny Terjesen, explica conceitos de natural, inatural e imoral desde a semântica até as explicações mecanicistas de Descartes.
3) Deus odeia caninos?, de Adam Barkman, desmistifica algumas características religiosas associadas aos vampiros, discute o livre-arbítrio e algumas ideias filosóficas obsoletas, como de Allatius em relação a demônios e possessões.

5ª PARTE: A METAFÍSICA DOS SERES SOBRENATURAIS
1) O coração de um vampiro tem razões que o naturalismo científico é incapaz de compreender, de Susan Peppers-Bates e Josh Rust, debate ideias como existência e universo conforme a metafísica, mencionando Tales, o naturalismo científico e a vida sob o ponto de vista científico, bem como as implicações filosóficas decorrentes dessa perspectiva.
2) Escondendo segredos de Sookie, de Fred Curry, reflete sobre experiências subjetivas da consciência (os qualia) e cita, como exemplo, o espectro invertido de John Locke.
3) Vampiros, lobisomens e metamorfos: Quanto mais eles mudam, mais continuam os mesmos, de Sarah Grubb, encerra o livro retomando a discussão sobre identidade pessoal, levantando conjecturas por meio da teoria corporal, teoria da memória e continuidade psicológica.

True Blood e a filosofia é, a meu ver, um livro riquíssimo em referências e solidez nos argumentos, indispensável aos amantes da série, mas também a quem deseja se aventurar em variados aspectos da filosofia através da deliciosa alegoria vampiresca construída por Alan Ball a partir da obra de Charlaine Harris.

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[FILME] OS GAROTOS PERDIDOS (The Lost Boys, 1987)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018.
Após se divorciar, Lucy (Diane Wiest) se muda para a pequena cidade costeira de Santa Carla, na Califórnia, com seus dois filhos, Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim). Enquanto Sam, o caçula, se distrai frequentando a gibiteria dos Irmãos Frog, Michael vai a uma festa noturna na praia e conhece Star (Jami Gertz), uma misteriosa moça por quem se apaixona. O problema é que Star está ligada a uma gangue de jovens rebeldes e arruaceiros liderados por David (Kiefer Sutherland). Michael acaba se envolvendo com o bando e, pouco depois, passa por uma série de estranhas mudanças físicas e comportamentais sem explicação aparente. É aí que entram em ação os irmãos Alan (Jamison Newlander) e Edgar Frog (Corey Feldman): eles revelam a Sam que são, na verdade, matadores de vampiros, e que Michael está se tornando um desses terríveis seres da noite. Para ajudar o irmão a voltar a ser humano, Sam e os Irmãos Frog precisam encontrar e destruir o vampiro mestre, aquele cujo sangue Michael bebeu inadvertidamente.
          Ao apresentar vampiros no universo adolescente, pode-se dizer que Os garotos perdidos representou, para a cultura pop dos anos 80, o mesmo impacto causado pela série Crepúsculo no final da década de 2000. Evidentemente, a semelhança termina aí, pois os vampiros do filme de Joel Schumacher (o sujeito que mais tarde seria repudiado por destruir a carreira do Batman no cinema) nada têm do espírito politicamente correto característico daqueles sugadores do século XXI. Ao contrário, eles são selvagens e manipuladores, sendo também sedutores quando lhes convêm.
          Um dos aspectos que mais chamam a atenção em Os garotos perdidos é que o filme preserva o máximo de características da mitologia vampírica tradicional: aqui eles são feridos por cruzes, água benta e alho, queimam ao sol, podem ser destruídos com estacas no coração, não têm reflexo, precisam de convite para entrar nas casas, têm caninos pontiagudos, podem voar e dormem em lugares escuros, de preferência suspensos no teto como morcegos.
          Como foi dito no texto sobre Quando chega a escuridão, há bastante semelhança entre este e aquele filme: além de ambos serem de 1987, contam com uma trama romântica juvenil que ocorre no seio de uma gangue de vampiros marginais e sanguinários.
          Os garotos perdidos é, enfim, uma das produções vampirescas mais marcantes sobre o tema já realizadas, merecendo o status de cult que possui entre sua legião de fãs; é também um filme estiloso e nostálgico, com a cara dos anos 80 (os cortes de cabelo e penteados da turma de David são clássicos). Nos aspectos técnicos ele também se destaca, com boa direção de arte, maquiagem, efeitos e trilha sonora: é impossível ouvir “Cry little sister” sem associar a música imediatamente ao filme.

Mais de vinte anos depois do filme original, foram lançadas duas sequências inteiramente descartáveis:

Garotos perdidos 2: A Tribo (Lost boys: The Tribe, 2008) dirigido por P.J. Pesce, nada acrescenta de relevante ao primeiro. O único ator remanescente é Corey Feldman, mais uma vez na pele do caçador de vampiros Edgar Frog. Dessa vez ele é procurado por um jovem cuja irmã foi infectada e está prestes a se tornar uma morta-viva definitivamente. Afora as cenas gore, é um filme chato, insosso e sem personalidade. Ele tenta ousar com algumas cenas mais violentas e elaboradas do que as do original (algo fácil, já que os efeitos especiais evoluíram muito de lá para cá), mas tais cenas são poucas e não compensam o andamento desinteressante do filme. O apelo sexual gritante também não ajudou esta produção a se destacar positivamente.




Garotos perdidos 3: A Sede (Lost boys: The Thirst, 2010) dirigido por Dario Piana, é ligeiramente mais consistente que o segundo, mas igualmente dispensável. Aqui ao menos há algumas conexões com o primeiro filme: uma referência a Michael e Star, a presença de Alan e uma homenagem a Sam. Quanto à trama, à primeira vista parece ter sido tirada de True Blood, falando sobre o uso de sangue de vampiro como uma droga; entretanto, se na série da HBO o propósito do uso de “V” era o efeito alucinógeno e afrodisíaco, neste filme o objetivo é bem mais pretensioso... e clichê: formar um exército de vampiros a partir do sangue do “original”.


Pessoalmente, acho Os garotos perdidos um filme completo e irretocável; uma mistura muito bem dosada de terror, romance e comédia. O fato de as continuações terem sido lançadas duas décadas depois acabou por torná-las ainda mais descaracterizadas e distantes do original. Se, hipoteticamente, essas sequências tivessem sido produzidas ainda entre o final dos anos 80 e meados da década de 90, talvez fossem melhores, pois, mesmo com roteiros fracos, ao menos teriam aquela atmosfera saudosista e estilo marcante do primeiro.

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[QUADRINHOS] INTERVIEW WITH THE VAMPIRE (1991 - 1994)

         Publicada pela Innovation Comics, Interview with the vampire foi a primeira transposição do romance homônimo de Anne Rice para out...